Montag, Januar 29, 2007

Ian McEwan is GOD

Logo ali embaixo tem um post (apaixonado) sobre David Foster Wallace, um escritor contemporâneo cheio de experimentos na linguagem, no qual o maior mérito reside em fazer os olhos travarem, eu diria. É algo como um mouse sujo, como eu disse antes; irritante, mas de certa forma sedutor, pois a todo custo precisamos fazê-lo funcionar. Depois de ler Ian McEwan percebo que eu realmente tinha essa necessidade de que David Foster Wallace funcionasse comigo e que de alguma forma eu fiz com que ele funcionasse; odiei tanto que gostei. Mas o Ian McEwan, ele não é um mouse travado, ele é uma janela de casa mal assombrada aberta para o gramado mais verde do vizinho. Veja bem, falo de sensações, pois são elas as únicas lembranças reais que possuo.
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A sensação que tive ao ler Ian McEwan foi _________________________
travo. Mas não com um mouse sujo, travo com a vontade de que o tempo congele legitimando um momento único e duradouro na memória, essa entidade enigmática que guarda com mais vigor aquelas lembranças que em tempo "real" duraram 5 minutos mas, em tempo EXPERIMENTADO, duraram duas, três, quatro longas horas; como um assalto, um acidente, um beijo. Pois quando o tempo corre rápido, tão rápido ou na mesma velocidade das horas, não perdura na memória. Por exemplo, já estou nesse computador há 6 horas e não vi o tempo passar, no entanto, amanhã, esses preciosos momentos virtuais não estarão na minha memória; são seis longas horas e nenhum instante de tempo EXPERIMENTADO.
O que eu quero dizer é, quando não há uma emoção real, só há tempo "real". Quando há uma EXPERIÊNCIA, há tempo experimentado e, logo, há MEMÓRIA.
A rapidez do tempo é uma ilusão de prazer/o agradável
nunca é significativo/ não ver o tempo passar significa não experimentar.
[Sobre aquela cratera que partiu o chão de São Paulo, por exemplo, houve toda uma discussão se havia "tempo" ou não para uma medida de emergência desde o momento que o chão começou a tremer até a tragédia se consumar. Segundo a empresa responsável pela obra, o tempo transcorrido entre a tremedeira e a cratera foi de mais ou menos 2 minutos. E então, a televisão perguntou para os obreiros (que EXPERIMENTARAM a situação) quanto tempo tinha levado entre a mesma tremedeira e a mesma cratera, ao que eles responderam "mais ou menos 10 minutos". E então a televisão deu a entender algo do tipo "veja só como a empresa está mentindo". Pra mim, parece um tanto óbvio que eles já sabiam a resposta dos operários. Afinal, a televisão é mestre em tempo real x EXPERIMENTEM O NOSSO TEMPO.]
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Foi basicamente isso que absorvi de "A criança no tempo", um livro que vai transformando um enredo clichê em uma história dura sobre o trancorrer dos minutos, horas, dias, meses, anos e vice-versa, através de um personagem que dá vontade de telefonar de madrugada pra chorar junto; notável semelhança com Salinger em seus infanto-juvenis e com Somerset Maugham em "O fio da navalha". Em comum, autores misturando o realismo com os sentimentos de sua época em histórias lineares contadas através de mais e mais sentimento. Sangue; BUSCA. É tudo que consigo dizer no momento. Ah, e o livro ainda tem um quê de física quântica (tudo bem, em algum modismo tinha que cair, caso contrário não seria "tão" retrato da nossa época).
Ah, outra coisa:
As alucinações na verdade não são alucinações; as alucinações são meros experimentos de algo que já aconteceu em um tempo real passado e estão voltando para nos avisar que participamos daquele passado (que nos fazem acreditar tão distante), de forma definitiva e real; visível. As alucinações são os olhos do coração.

Dienstag, Januar 23, 2007

always shit!

Vontade de comer queijo mas, pense bem, adultos não precisam de leite, o leite é uma caloria vazia, gordurosa, o leite dá colesterol, e só. Vontade de tirar fotos mas, pense bem, suas fotografias não tem função social, hoje em dia a única coisa que importa é a criatividade, entendeu bem? CRI- ATI-VIDADE, mas não, eu não vou entrar nessa, eu realmente quero ter algo a dizer ao invés de fotografar pés em ângulos nunca antes explorados. Quem sabe, meter medo em algum adolescente desavisado emprestando um DVD com o seriado Twin Peaks. Quem sabe distribuir muitas cópias deles pelos corredores das universidades burocráticas com seus alunos burros (nossa, essa frase ficou tão clichê, vazia e sem função social, e a arte está tão morta e o artista bom é o artista bem quietinho, who knows.).
LUTO
Eu declaro luto rosa-pink para os que acham que eu escrevo coisa de mulherzinha, eu declaro luto laranja para os que com 40 anos apodrecem em suas casas dormindo na sala com a televisão ligada no canal 12 ou os que mofam fedendo a coca-cola com seus detestáveis 20 anos e canal 14, e os leitores de David Foster Wallace rejeitando a porra da televisão pra assistir algum filme gravado toscamente por um amigo de 50 que ainda anda com adolescentes. Eu declaro luto pela blusa de flores suada depois de trabalho e amigos e línguas e cervejas que não descem mais. E essa vontade de comer queijo, essa vontade de comer queijo que me sobe pelo esôfago ardendo e implorando um copo de suco de goiaba, del valle, por favor. Enfurnada nesse trabalho intrapsíquico de elaboração da perda da emoção que sentia ao ouvir Renato Russo dizendo que sente mais falta daquilo que nunca teve eu penso que um queijo, afinal, não resolveria meus problemas e, tampouco, minha fome.
O esôfago, não sei se é o esôfago, mas algo entre a garganta e o estômago reclama frutas, vegetais, ar puro, nicotina zero. E o coração, não sei se é o coração, mas algo entre a cabeça e os pés reclama aventuras, independências, intimidades. O íntimo é o que há de mais profundo em alguma coisa ou em nós mesmos; pode ser também, ou ao mesmo tempo, algo tremendamente secreto. Logo, o que há de mais profundo em nós é um mistério que, "se" e "quando" revelado, é a entrega total.
[SECRETA é a oração que o padre diz em voz baixa, antes de começar a missa, ou pode ser também um produto de secreção elaborado pelas glândulas.]
O importante é que, ainda que a intimidade seja a troca de pequenos segredos, o segredo sempre será aquele que jamais pode ser revelado, logo, a inimidade é uma ilusão; uma ilusão no sentido PALPÁVEL mas, no entanto, tão bonita de se ver, sentir e ouvir. Como diria Fernando Pessoa, o olfato é que vale. Ou seria o tato?
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João olhou Maria pela janela do banheiro enquanto ela defecava, Maria vislumbrou o rosto sorridente do namorado no canto do espelho e ficou constrangida; não por João estar assistindo seu ato tão íntimo de cagar e sim por não saber como se comportar na frente do ser amado enquanto caga, como diria o Kid Abelha, ninguém ensinou na escola. Então Maria escondeu os seios nos braços que agarravam as pernas em posição de cócoras e disse algo aleatório com intenção de demonstrar leve e natural conforto ao mesmo tempo que sentia que João jamais a amaria da mesma forma. João sorri e desaparece do canto do espelho, Maria pressente; levanta da privada debatendo mãos no papel higiênico enquanto o barulho dos passos de João ficam cada vez mais perto, ele está dando a volta no corredor.
O corredor é um momento de transição; o elevador, um símbolo do ato sexual.
O ruído da descarga. João abre a porta do banheiro. Então temos ruído da descarga. Então temos Maria enrolando-se na toalha e o olhar dele, como que sabendo que aquele momento não era o de convidá-la para uma trilha ecológica, ou para um almoço no Shopping, e não era hora, mesmo para um olhar do tipo "calma, isso não foi nada demais, já vi outras cagando, eu gosto"; Maria não sabia o que fazer, não sabia o que dizer , afinal, nada tinha mesmo acontecido, e foi isso que ela pensou enquanto ele sorria aquele mesmo sorriso do canto do espelho tentando agora decifrar ainda mais de perto no fundo da pupila misteriosa de sua amada seus mais secretos e fedidos contrangimentos. A reação. O olhar da reação, as mãos da reação, o sorriso tímido ou vibrante da reação. É só o que queremos, always. Shit.

Sonntag, Januar 14, 2007

Savana

"I've been looking so long at these pictures of you that I almost believe that they're real. I've been living so long with my pictures of you that I almost believe that the pictures are all I can feel".(The Cure - Pictures of You)
Será que eles não percebem o quanto Savana sufoca, mas sufoca mesmo, a ponto de ficar mais de 8 horas sentada no mesmo lugar sem se mover, será que eles não sabem que Savana teve suas primeiras dores musculares, dores de tensão, aos 5 anos? Não, eles não percebem, só percebem a própria dor, o próprio sufoco, aliás, não sei se poderíamos chamar de sufoco, pois o sufoco é contido, uma repressão involuntária dos músculos ou uma obediência, uma submissão em prol do bem-estar alheio. O verdadeiro sufoco não grita nem geme, por respeito. Sim, o sufoco voluntário. Eles gemem. Desde que Savana nasceu e escutou pela primeira vez, eles gemem. Miseráveis incapazes de sufocar a própria dor, querem que doa nos outros também, não limitam seus gemidos nem perante as crianças, fazem questão de que elas saibam o quanto eles sofrem, por elas, é claro, pois a dor deles hoje é consequência dos sacríficios pelo leite e o conforto de ontem. Pobre Savana, lá sentada, sofrendo, enquanto eles limpam o chão de seu quarto e lavam suas calcinhas, sempre gemendo.
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Existe um filme de Ingmar Bergman chamado "Sonata de Outono", sobre uma mãe egoísta porém com uma carreira artística brilhante. Ela abandona a família por causa da carreira e depois de velha tem isso tudo e mais um pouco jogado na cara pela filha que, obviamente, joga todas as suas frustrações no afeto negado pela mãe durante os seus primeiros e essenciais anos de vida. Liv Ullman faz o papel da mulher infeliz que acredita que sua infância solitária é a culpada de todos os seus problemas adultos.
[Crianças. Crianças de domingo, já dizia o próprio Bergman.]
Crianças nascidas em um dia de domingo são aquelas que carregam a sensibilidade artística na alma, segundo uma tradição sueca. Vai ver a personagem da Liv Ullman não nasceu em um dia de domingo, e esse é o único motivo pelo qual ela não executa um Chopin tão divinamente quanto a mãe, uma renomada pianista. Almodóvar fez uma bela sátira deste filme em "De salto alto". Muito mais bem humorada, a versão espanhola traz uma personagem-filha que se vinga da falta de atenção da mãe casando com o padrasto. E depois o trai com um travesti.
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Então Savana ficou olhando as fotos tão coloridas e cheias de vida e grama e cafeterias diversas com paredes vermelhas, verdes, laranjas. Fotos com mesas de toalha xadrez cobertas por sucos de frutas; amarelo-laranja, roxo-uva, verde-limão. E por algumas oito horas sentada na frente do computador conseguiu esquecer parcialmente o quanto eles gemem. E ficou pensando no quanto vem procurando, de certa forma, pessoas que também gemem ao invés dessas tão coloridas que pulam e fazem caretas e não usam drogas. E então Savana percebeu que os dias azuis talvez fizessem mais sentido se ela fosse a piqueniques ou deitasse na grama, e que talvez os dias cinzas também fizessem mais sentido se ela lesse um livro no vento ou tomasse café em cafeteiras coloridas. E aí ela pensou que talvez esteja lendo muito Caio Fernando Abreu, e que afinal de contas isso é um computador e não a vida de alguém. E que afinal o que ela quer dizer com fazer sentido é fazer feliz, e ela sempre achou que felicidade era pra gente burra.
E continuou lá sentada no seu computador olhando fotos alheias, num daqueles dias azul turquesa com pequenos tufos de algodão no céu, um verdadeiro cotonete gigante desentupidor de todas as amarguras dos pequenos homens lá embaixo, em seus computadores, verdadeiros desertos doces. "Ainda prefiro que eles continuem gemendo", pensou, "do que matá-los com os meus sentidos todos, tão felizes, afinal".

Dienstag, Januar 09, 2007

Inferno Astral

Deviam ser umas 4 ou 5 da manhã, estávamos voltando de uma festa e procurando um lugar pra comer e comprar cigarros, aí entramos em um desses bares 24h da Cidade Baixa com cara de xis-ruim-que-demora-duas-horas, lotado de mesas de plástico com batatas-fritas e amigos dividindo litrão de coca-cola. Entramos, batalhamos nossa mesa e eu sentei minha bunda cansada e fiquei olhando pra rua. Na calçada bem em frente tinha um velho de calças curtas e sapatinho bem engraxado carregando uma dessas bolsas-pastas pretas de material nem duro nem mole pendurada no ombro, acho que ele usava também uma dessas camisas sociais baratas, mas muito bem colocada pra dentro das calças em estilo centro-peito. Eu fiquei olhando pra ele; gosto de velhinhos e achei bonitinho o jeito como ele conversava com o frentista coçando o queixo, como se estivesse refletindo sobre as palavras profundas daquele homem de cabelo desgrenhado abanando para os carros com um paninho de flanela.
Ficaram um tempão conversando. A gente ficou um tempão olhando o cardápio e depois pediu 3 baurus, um cigarro e uma ceva. Os dois continuaram ali, até o fim dos nosso baurus, cevas, coca-colas e acredito que até o fim de todos os nossos cigarros também. Aí uma hora eu vi o velhinho tirando alguma coisa da bolsa; era um desses potes de marmita do 1,99 com uma tampa laranja. Ele estendeu o pote para o frentista e o homem tirou dali um bolinho de carne, tentando disfarçar uma fome absurda que dava pra perceber só quando a comida chegava na altura da boca; como numa espécie de demonstração de respeito ele demorava o máximo possível aquele caminho do bolinho até a boca dirigindo seus olhos famintos para os olhos do velho que agora falava; disfarce que caía por terra depois que os bolinhos entravam de uma vez só na boca e mão descia angustiada até o pote de novo. A subida é lenta e a descida rápida, como em todas as escaladas da vida.
Quando os bolinhos acabaram o velhinho fechou o pote com a tampa laranja (fixei muito a cor do pote pois acho laranja uma cor angustiante e ao mesmo tempo alegre, dizem que é por isso que o Mc Donald's usa essa cor, para as pessoas comerem, ficarem alegres e irem embora) e guardou na pasta, apertou a mão do frentista (e eu pensei: bom, agora ele vai entrar no carro e ir embora) e foi indo em direção ao ponto de ônibus, mancando como um bom velhinho. Foi aí que alguém da nossa mesa entupida de cinzeiros entupidos e pratos sujos de maionese e ketchup perguntou: "o que tu tanto olha?" e eu respondi "o velhinho ali", e então outra pessoa da mesa olhou pra fora, largou o seu delicioso bauru no prato e disse "é, realmente não é uma boa hora para velhinhos estarem na rua".
Quando a gente saiu do restaurante, uns 20 minutos depois, ele ainda estava na parada de ônibus, e já deviam ser umas 6 da manhã nessas alturas, quando eu saí correndo feito uma retardada até lá, antes que ele entrasse no seu meio de transporte e eu nunca mais pudesse dizer "que liindo isso que o senhor fez, o senhor é demais, etc, etc". Muitas coisas passaram na minha cabeça enquanto corria bêbada de amor até aquele ponto de ônibus; admiração, vontade, tristeza, vergonha. Ele me olhava correndo em sua direção, com certeza já tinha percebido que eu o observava o tempo todo, e ele me olhava com um desses olhares calmos, complacentes, resignados porém satisfeitos; um desses olhares de vovô que vai chegar em casa, tirar os sapatinhos engraxados e colocar uma chinelinha de pano, depois tirar a chinelinha de pano e dar um beijo de boa noite na vovó enquanto deita na cama de madeira velha comida pelos cupins. Ou talvez fosse o olhar de um homem solitário aprisionado em um corpo cansado e de pêlos brancos, indo para sua casinha vazia em Gravataí, na qual vai chegar pelas 7 da manhã e ainda dar comida ao cachorro e encher as tigelas do pátio com farelos de pão para os pássaros. Migalhas, a vida é feita de migalhas.
Eu bati no ombro dele e disse "Desculpa, eu tava ali olhando o senhor e achei tão bonito e o senhor vem todo o dia aqui dar comida aos frentistas?" e ele riu aquele sorriso de idosos com rugas em volta da boca e poucos dentes e disse que trabalhava em um estacionamento ali perto, "o senhor trabalha toda noite até essa hora?", eu perguntei, e ele disse "há 45 anos", e eu disse "que lindo", como uma boa burguesinha sem noção voltando de uma festa no Jekyll. Ele continuou sorrindo aquele meio sorriso tão bonito e claro, de uma clareza dessas que deixam a gente cego e pequeno; e aí ele contou que nunca comia todos os bolinhos que ele ganhava lá no estacionamento e por isso guardava em um potinho e quando saía de lá ia levar o potinhos aos frentistas que ficam ali às vezes o dia todo sem comer; achei bizarro (um estacionamento que que dá bolinhos de carne aos funcionários) e depois pensei que na verdade talvez o que unisse ele aos frentistas fosse justamente isso de ambos cuidarem de veículos alheios, porém o velhinho era um frentista de nível mais elevado, quase "rico". E aí o ônibus dele chegou e eu o abracei e disse "feliz natal pro senhor, tudo de bom, mesmo" (uma coisa tão automática de se dizer mas que veio tão sem esforço naquele dia).
E comecei a lembrar disso hoje, em plena avenida Salgado Filho, enquanto observava um outro velhinho vendendo aqueles sucos de frutas cítricas que dá pra sentir o gosto doce de puro açúcar só de olhar, embaixo de um céu azul de 40 graus e que com certeza também se acha muito rico pois trabalha em uma avenida onde as pessoas dormem enroladas em papelão, e isso é deveras amargo, e me lembrei de um documentário que vi na TV sobre uma criança agonizando durante 7 horas em uma avenida central de São Paulo ou Rio enquanto os pedestres que provavelmente são assaltados toda semana mal olhavam de canto. E amanhã é meu aniversário, e não tenho vontade de comemorar, e talvez isso tudo que pensei não passe de uma busca de motivos nobres para a minha tristeza sem função social.

Donnerstag, Januar 04, 2007

chopps não matam animaizinhos

(folha 1 do diário de uma nova vegetariana)

Os dois litros de chopp me pesam na cabeça mas como é incrível que nunca pesam no coração, esse sempre voa levinho, tão levinho que sai se batendo por todos os cantos duro do peito,
esses cantos-esconderijos de mágoas escondidinhas fedidas que não saem para fora pelo simples motivo de não ser todo dia aquele o qual tenho grana para me atolar no líquido amarelo-laranja cor do mijo fedendo tanto quanto os rancores escamoteados que hoje saíram pra fora. Quando se tem dinheiro o chopp entra e a mágoa sai depois de tanto ser espancada por esse bate-bate-coração ventinho dizendo eu te considero, eu te amo, bate-bate-levinho deslizando no peito até encontrar não sabe como algo como aquele pingüim que Tyler Durden encontra sempre em suas meditações de grupos de auto-ajuda no filme Clube da Luta. É assim: ele está levinho, levinho meditando e quando o mestre do grupo diz "pense no seu animal interior" ele vê um pingüim e acorda da meditação na mesma hora. O que eu quero dizer é, para encontrar um monstro interior ele não precisa ser necessariamente um monstro (pode ser um pingüim) mas ele precisa ser necessariamente encontrado num momento de profundo relaxamento e paz de espírito (como numa rodada de chopps); é preciso alcançar a leveza mais ventinho de um coraçãozinho saltitante para que ele bruscamente bata direto no poste das mágoas. É só isso, tudo uma questão de confiança infundada e vulnerabilidade.

[Você sabia que o chopp é a cerveja que não passa pela pasteurização? Eu li hoje em um daqueles redondinhos que os garçons vão amontoando embaixo do copo pra gente não perder a conta; chopp é caro, e sempre vem com esses redondinhos com marcas de cerveja ao fundo, estampado por cima com essas letrinhas que na mesa do bar fazem a gente pensar "eu já devia saber, apenas não lembrava".]

Tudo apaixona mais, tudo irrita mais; é uma cabeça à flor da pele, eu diria; coração, não. Coração não tem paranóia nem mágoa, coração só guarda uns cantinhos do peito pra ser casinha das mágoas da cabeça. O coração é um pobrezinho sem força própria quando as neuroses gritam de dentro de uma cabeça pesando 2 litros de chopp. E mais alguns cigarros. O câncer é um filho que foi embalado no mesmo colo que cresce enquanto os bares somam-se; apenas uma criança. Eu me sinto muitas vezes assim, com essa sensação de não-queria-ter-brigado-quero-voltar-no-tempo-não-posso-acreditar-que-em-dez-minutos-tudo-ficou-tão-escuro. E chopp escuro é coisa de veado.


(Eu não quero dizer que o animal interior de cada um é um monstro, mas o Bambi talvez queira.)

Mittwoch, Dezember 27, 2006

miojo de morango

O sentimento que tenho em relação a David Foster Wallace se compararia a um miojo de morango. É tão nojento e irritante (apenas a idéia da existência de um miojo de morango) que sinto cócegas. Cócegas são semi-orgasmos, mas incomodam. Incomodam e fazem rir; mas agora não consigo rir. O cheiro de carlton e cerveja é como um miojo de morango, a mistura do sabor e do nojo, e o nojo é um luto, um trabalho intrapsíquico de elaboração da perda de um objeto amado externo. A perda da razão, a vitória dos DESEJOS. Percorrem meu corpo, sujam minha roupa, pedem um picadinho no bar maroto do centro pelas duas da manhã. Desejos fedem; desejos não se realizam, quando se realizam, são felicidade. Felicidade é ruim, felicidade é contentamento, abnegação, busca encerrada. DESEJOS comandam. David Foster Wallace é puro desejo; desejo de chocar, de incomodar, desejo de não se realizar e continuar sempre travando como um mouse sujo de cabelos e restos de unhas. David Foster Wallace é um grito no ar, perdido, sem fim, sem comunicação, puro LIBERTAR. O LIBERTAR não tem fim, a liberdade não pode nunca alacançar um objetivo, a liberdade é o desejo de estar solto de todas as amarras e as amarras são justamente a necessidade de LIGAÇÃO; a ligação COMPÕE, estabelece, dá vida a novos compostos, químicos, gramaticais; seja o que for, sempre faltam. Faltar, perder, emburrar; regras de uma vida sem escolha. É preciso desembaraço mas, normalmente, a liberdade é como uma licença.

[Ter liberdade é ter permissão ou uma maneira de agir com audácia.]


A FESTA

No dia da festa, pela primeira vez em cinco anos, ele dormiu na posição de um homem infiel. Peito pra cima, braços cruzados em cima do peito; significa que ele até quer ser fiel, mas não consegue. Peito pra cima, braços cruzados, mãos segurando a cabeça, significa que ele é um infiel assumido; um machão orgulhoso de seus culhões fedidos a baixos critérios. Barriga pra baixo, corpo voltado ao colchão; ele quer sexo.


Três, quatro, cinco carreiras; correrias, adaptadores de MP3, danças caretas e frenéticas; só nós dois no salão. Uma criança dormia. A outra, de olheiras fundas, jogava o video-game do papai-noel. O pai das crianças, anfitrião da festa, constrangido, não sabia de adaptadores de MP3, não sabia das crianças, mas sabia das sete, oito, nove, dez, onze carreiras. Constrangido, no banheiro. Constrangido, e vermelho. Constrangido, e malvado. Egoísta, pérfido, só queria compartilhar. Treze, quatorze, quinze carreiras. Ele, o meu amor, no dia da festa, constrangido, mas de constrangimentos bonitos, completos e partidos. Partidos pela necessidade constrangida de compartilhar, de não deixar o pai das crianças que ele, meu amor, amava, ali, sozinho, pérfido, dezoito, dezenove carreiras. Naquele dia da festa ele compartilhou de toda imundíce que seu constrangimento até então o havia impedido de compactuar mas, naquele dia da festa, vendo o pai, assim, sozinho, fodendo com todos, teve que foder também. E dormiu, segundo algum programa de televisão que as donas de casa assistem pela manhã depois que as crianças acordam e enquanto esquentam o leite no microondas, como um homem infiel. E a festa acabou na garagem disfarçada de quarto, com goteiras ao lado da cama e meu amor vomitando o peso de um caráter morto. E o desenho da criança, que dormia ou jogava (ninguém mais sabia) ficou ali, escorregou do imã da geladeira que ficava na garagem gelando as últimas cervejas enquanto eu fumava e pensava nele (o desenho) parado na poça da goteira, submerso. Olhei bem pra ele, uma festa de lápis de cêra que compunha um castelo, afogado. E ele, meu amor, meu anjo azul, entregue ao sono dos infiéis.

Compartilhar imundícies é abdicar da liberdade dos princípios acorrentados.

Sonntag, Dezember 17, 2006

Die Unabhängigkeit

[dureza: grau de resitência de um material à penetração de outro material]
Unabhängigkeit significa independência; a independência é a ausência de ligação com movimentos específicos e ideais compartilhados em geral. Pode ser também a liberdade condicionada por bens pecuniários; a pecúnia é o conjunto de numerário sob qualquer forma existente de valor utilizada para a troca; o valor é o preço atribuído a alguma coisa ou uma forte estima dedicada a alguém ou alguma idéia. Vasos de cerâmica não tem valor, mas só o pão-duro sobe na vida. O pão é um alimento que quanto mais duro mais esfarela-se. Os degraus são sempre escalados por migalhas; a dureza é uma pérfida ilusão.

Samstag, Dezember 16, 2006

Hallo, wie geht's?

Me sinto
totalmente
embriagada
e não poderia deixar passar essa vontade de escrever sem compromisso e assuntos determinados, não que em posts sóbrios eu os tenha, mas sempre os embriagados fazem mais sucesso. Acabo de ler meu post sobre "videodrome" (welcome to the new flesh) e penso que ele soa um tanto sóbrio-mangolão. Na verdade, a maioria das coisas que escrevo soam um tanto mangolão, por isso não sou digna de pertencer a algo do tipo o Insanus. E isso me lembra o Gabriel Pillar que morreu num acidente de carro embriagado e o post sóbrio que escrevi sobre isso e soou tão ridículo, por que eu falava de ausências que poderiam ser tanto falhas quanto saudades e de que fiz meu irmão de 9 anos jurar que nunca dirigiria bêbado (dizem que não funciona), que acabei apagando. Depois a proliferação de homenagens internéticas me fez sentir um pouco de enjôo. Sei que ele era um cara bacana, mas não posso evitar um certo asco desse romantismo compartilhado em rede mundial. Provavelmente os integrantes do Insanus valorizam essa relação mais do que eu, e mais do que isso, a utilizam muito bem no quesito "Blog"; sem parecer babação de ovo, os integrantes do grupo comentam uns aos outros em tom irônico sem perder a elegância amorosa que uma bela amizade exige. Mas não era disso que eu queria falar. Não sei do que eu queria falar.

Eu nunca sei do que eu queria falar, por isso fico dando voltas e voltas e me surpreendo quando alguém me leva a sério. Acho que eu não devia ter um blog. Uma amiga disse que só visita blogs em busca de evidências da vida pessoal do blogueiro; EIS AQUI UMA BÊBADA REVELANDO SEUS ASCOS:
1.Pensar que meus avós vão morrer em breve.
2.Pensar em adultério.
3.Pensar que estou escrevendo um diário em rede mundial.
4.Como a maioria da mulheres, pensar nos meu defeitos capilares e corporais.
5.Me sentir burra e vazia.
Ok, estou por dentro do aumento que os políticos revindicaram para si mesmos, estou por dentro da declaração de Lula sobre os esquerdistas jovens e velhos e o modo escroto como tentou se retratar elogiando o velhinho Niemeyer que tem 99 anos e continua comunista. Eu leio Correio do Povo, e daí? Ainda não tenho uma opinião formada a respeito do empobrecimento da classe média por culpa do Bolsa Família mas acho palha que um cara que a receba e não cumpra a cartilha tenha apenas 30 dias de suspensão. Também não gosto de notícias a respeito de obras públicas e nunca entendo os conflitos na Faixa de Gaza mas,ao expressar esse meu sentimento de falta de informação meu companheiro de cevas e churrasquinhos sentenciou:"São basicamente disputas territoriais". Lá e aqui.

Durmam bem. Talvez quando vocês estiverem aqui não seja noite, mas o que importa é o momento, e talvez esse seja meu pior defeito.

Pais e Filhos, 1970.

Welcome to the new flesh!

[VIDEODROME 1.filme de Cronemberg que mesclou com louvor as mentes assassinas de "Scanners" e o furor sexual-mortal de "Vício Maldito" e ainda conta com a participação de Debbie Harry, vocalista do Blondie. 2.programa de TV supostamente cancerígeno.]
"A palavra do vídeo transformou-se em um pedaço de carne"; a televisão injeta tumores que causam HELLucinations do tipo guardar pistolas na barriga e sentir palpitações ofegantes da mulher desejada em caixas de som, aparelhos de ar-condicionado e fitas VHS. A realidade da imagem é mais forte do que o caos do corpo, humanos são executados como reprodutores de imagem; pause, play, stop.
Uma pausa é uma breve interrupção e a interrupção é um breve cessar da velha carne; fedida, suada e mole contra a nova flesh tenra como um robótico caçador de promoções no mercado.
the new flesh is tough as nails. red nails versus black nails? Black or White? Back to the Back; from your Head.
Michael Jackson é a nova carne.
A nova carne é uma ilusão sem cor, sem nariz e sem valores familiares, com muita maquiagem. A nova carne não sente o CHEIRO; indício de violação e fomes, na linguagem figurada, um vestígio ou uma aparência.
A NOVA CARNE BEBE CEVA
A CEVA é um processo de caça ou pesca que consiste em lançar, periodicamente, no mesmo lugar, os alimentos preferidos das presas, para depois surpreendê-las nesse mesmo local.
[ainda sobre o céu]
os anjos vêem a nova carne como crianças.
"Als das Kind Kind war, wußte es nicht, daß es Kind war, alles war ihm beseelt, und alle Seelen waren eins."
[Quando a criança era criança, não sabia que era criança, tudo a inspirava, e todas as almas eram uma.] - Wim Wenders, 1987, em "Asas do Desejo".
2007. Passados "Fahrenheit 451", "Asas do Desejo" e "Videodrome", é possível estabelecer uma conexão entre uma sociedade em que os livros são queimados para que sejam evitadas personalidades introvertidas e proclamada a comunicação fútil entre as ovelhas do rebanho de robóticos caçadores de mulheres no trem, e outra sociedade em que o vídeo transforma a transmissão de sexo, violência e tortura em ondas cancerígenas para mentes amorais; a morte do livro como instrumento de silêncio e depressão, a vida paplpitante do vídeo que institui os monólogos de um morto gravados em fitas VHS como a nova vida, ou a nova carne: "Meu pai sabe mais sobre isso do que eu, escute o que ele tem a dizer", diz uma personagem de "Videodrome" estendendo uma pilha de 4 fitas VHS à outra.
[Escapou a Cronemberg que as fitas VHS mofam mas não a previsão precoce do YouTube e dos scraps para as carnes mortas na Orkut.]
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[ainda sobre o céu]
Sobrevoando a sociedade alemã de uma Berlim na qual se falam também o inglês e o francês, anjos revindicam o prazer do "agora" em substituição ao conforto do "eterno" (dizer "ah, não" ao invés de "sim" ou "amém"); cigarros e cafés podem matar mas tornam a vida colorida quando se dá asas à cobiça. O desejo consiste em ambicionar o que não se tem ou goza. Os humanos aspiram a eternidade do vestígio da velha carne enquanto os anjos aspiram descer e feder e conhecer o que é branco, vermelho ou preto.
[kennenlernen]
KENNENLERNEN, em alemão, significa conhecer pela "primeira vez" alguém (ou alguma coisa?), ou seja, ser apresentado. KENNEN é o verbo "saber, poder, conhecer" (tipo o "can" do inglês) e LERNEN (to learn) significa "aprender". Portanto, quando alguém diz "es freut mich, Sie kennenzulernen" (prazer em conhecê-lo) está dizendo que é um prazer estar aprendendo a conhecer aquela pessoa.
Conhecer é ser capaz de formar uma idéia sobre o que se vive ou observa; experimentar, provar, sofrer. Em sentido bíblico, ter relações sexuais.

Montag, Dezember 11, 2006

Der Himmel über Berlin

Penso no céu como um lugar onde são necessários "contatos" para que a entrada seja permitida. Entrada ou passagem?
"O céu sobre Berlim" ou "Asas do Desejo" foi onde tudo começou; o início é o fim de um fio condutor de pensamentos emaranhados que tiveram início no cheiro da grama que vinha da minha boca. O jardim de concreto (versus) a cama; eis a batalha dos aflitos.
É imposível não ser pessismista quando se pensa que vai chover e chove, ou quando se pensa que vai chorar e chora. Estava eu pensando entre uma parede e outra mais duas de cada lado ou, pensando horizontalmente, entre a cama e o jardim de concreto, afinal, toda luta do ser humano é entre a preguiça e as grandes cidades, ou seja, entre o instinto animal voltado ao prazer e a evolução robótica urbana.
Quando tinha 15 anos me perguntaram se eu nunca havia atentado ao fato de que todas as pessoas que eu admirava nos filmes estavam mortas; na ocasião, o filme era "Casablanca" e, de fato, eu nunca havia pensado sobre o assunto.
[Isso me lembrou uma cena de "Asas do Desejo", ou melhor, um parágrafo da legenda: "O tempo cura... Mas... E se for o TEMPO a doença?"]
Hoje é uma daquelas noites em que se sabe que vai chover e os mosquitos te devoram enquanto outros te distraem com barulinhos no ouvido pois os mosquitos, assim como os homens, trabalham em equipe. Enquanto uma parte do grupo te aniquila, a outra canta para te amortecer.
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Deixe sempre um Scrap para os mortos.
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Quintana disse que nunca escreveu nada que não fosse uma confissão; Quintana está morto como Borges, que está morto como atores de "Casablanca". Os filmes são um acessório do meu investimento pessoal e não o contrário. Lamento, mas não usarei o Google para expressar meus sentimentos.
Os grandes artistas estão mortos e os novos acreditam que a teoria e a "História" podem ajudar. Mania acadêmica vomita spaghetti mastigado com cenoura.
[Artista que é bom não tem blog]

Freitag, Dezember 01, 2006

Ghost World

"Ghost World" é como "What the bleep do we know?", só percebemos seu real valor após o decorrer de uns 5 dias, necessários para relevar os clichês decorrentes da proliferação de filmes com apelações da ordem "me assistam, por favor! sou cult e tenho utilidade mundial!". Sim! Ghost World é pior que Nouvelle Vague e tem a grande utilidade de nos mostrar como nossa geração é indecisa, cara-dura e sem-vergonha. Começando pela seleção de elenco que não poupou a escolha de alguém tão semelhante à Christina Rich (musa cool) para convencer o público sem causa. E o que é uma causa? Uma causa é a origem de toda e qualquer situação, mas também pode ser a idéia defendida por um grupo de pessoas. A causa defendida pelo filme é: tenha orgulho de ser um fracasso, pois ainda assim você pode usar meias arrastão! Sempre haverá um ônibus esperando por você, ir embora está sempre dentro de cogitação, mas você pode simplesmente se contentar com casinhas de um quarto e tábuas de passar embutidas. A morena de óculos que parece a Christina Rich está para Holden Caufield assim como o Homem de Areia está para Gregor Samsa. No livro está o monstro, no filme, a aparência.
OBSESSÃO PELO TERMO COOL É RECALQUE SUBURBANO!
Mataram hoje mais um, esfaqueado por um invasor na frente dos filhos de 6 e 8 anos. Rolou na escada em luta. Luto? Qual a utilidade? Mesas de jantar com cadeiras? Cadeiras de balanço em extinção. O importante agora é arranjar um bom emprego em tempos de aquecimento global. O caos virá lento e cruel, e você? Eu não quero ser garçonete, além de lidar com gentes ainda caminham de um lado para o outro. Ai, que calor!
Não sei distinguir um tédio de um anúncio de vômito!
Sou Charlie Brown esperando um cartão de dia dos namorados. Não, não sou. Sou Sailormoon, voando e apaixonada. SOU ridícula, romântica, tímida. Sou puro ar, como numa canção da Nely Furtado; sou BREGA! Mas Fernando Pessoa não deixa de ser ÓBVIO, com suas observações a respeito do campo e da cidade ("preciso da cidade para me sentir bem no campo e vice-versa" em palavras bonitas) e sua primorosa opinião sobre como as pesssoas precisam ser sensíveis para se comoverem com sutilidades como um dia cinza.

Mittwoch, November 29, 2006

Recomendo que você conheça seu vizinho.

Meu vizinho, um cara clássico. Lia livros em alemão encapados com folhas de revista no ônibus e nos dias de chuva saía de casa com uma touquinha cirúrgica cobrindo seus cabelos brancos e volumosos para os lados, numa mistura de Bozo com Einstein. Era formado em Física e Medicina pela UFRGS e auxiliava nas pesquisas do Departamento de Física Nuclear da Universidade. Descobri isso há dois dias pela Zero Hora, e agora penso como o mundo é bizarro, mais bizarro do que sempre, tantos anos ali ao lado, tantas noites sozinha e ele ao lado, também. Solidão compartilhada é tão bonita mas, tá, talvez não seja tudo isso, só estou sensibilizada. Mas ele era tão bonito no seu estilo cabeção discreto que só falava com os vizinhos para presenteá-los com goiabas e juntar as bolas que as crianças chutavam para o seu pátio.
Mataram o meu vizinho, 3 dias e não consigo parar de pensar. Vejo as poças de sangue me debruçando no muro, as crianças também viram e perguntam "será que ele fez mal pra alguém?". Asfixiaram o velhinho com uma sacola plástica e deram pauladas em seu pescoço para depois arrastar o corpo até o pátio, onde o cobriram com algumas folhas secas. Eu estava na sala tomando cervejas e assistindo "Factotum", não ouvi nada, nem o cachorro.
Eu sei que informações sobre crimes como esse não trazem nada de útil para os leitores, apenas fofoca e especulação. Quantos relatos também já não li desse tipo "a gente sempre acha que não é com a gente até acontecer por perto" e continuei achando que não era comigo. A gente sempre vai achar que não é, até que o jardim da nossa própria casa fica infectado por uma áurea estranha.
A violência urbana já um clichê, que merda.
Eu sei quem matou mas não vou escrever aqui, acho, inclusive, ainda bem, que não se trata de violência urbana e sim de violação espiritual do caráter. Algum escritor famoso disse que admirava 3 tipos de pessoa: o assassino, o padre e a puta. Não lembro a justificativa da opinião mas lembro que achava o auge do pensamento intelectual aprimorado. Agora penso que o assassino está fora do círculo. Não o admiro mais. Não é como nos filmes, sei que descobri tarde, mas nunca tinha conhecido um ao vivo. Talvez minha idéia de assassino fosse aquela de um destruidor destemido e amoral, e é impossível negar que existe sim uma áurea sedutora ao redor dos crimes, principalmente os que envolvem rituais satânicos. São crimes sem utilidade pública mas no entanto são os mais chocantes. Qual o motivo de nos interessarmos por conflitos que dizemm respeito somente aos envolvidos? Há mais ou menos uma semana atrás um casal se suicidou num motel e, curiosamente, a menina de 14 anos que supostamente se matou por causa da opinião dos pais a respeito do seu namoro com o músico de 30 anos, morava na rua atrás da minha. Ambos os crimes são daquele único tipo que podemos dizer "o raio não vai cair no mesmo lugar", pois não é como um crime em uma rua específica, que depois podemos evitar de passar ou morar, é um crime com PESSOAS específicas, e que já morreram. Mesmo sabendo da equivalência entre estes crimes e fofocas da Contigo, já acessei a página policial da Zero Hora por diversas vezes na mesma semana. E não consigo parar de me sentir péssima, por isso peço licença para utilizar este espaço público como terapia, não que os outros textos também não sejam mas, hoje, pela primeria vez, senti vontade de falar assim, claramente, sobre fatos reais e apelativos. Me desculpem, sei que isso é péssimo, mas eu precisava compartilhar, dizem que terapia em grupo é muito eficaz, imagina então terapia em rede mundial.

Sonntag, November 26, 2006

fatos fantasmas

"The leaders of men born out of your frustration."
(Joy Divison, 'leaders of men')

Ghost World+++ No estilo Tenembauns, o filme traz figurino cool e trilha sonora soando como lado B da MTV. Ainda assim vale a pena pela fina ironia de cenas como a de uma menina trabalhadora do interior que recém adquiriu sua casa própria mostrando à outra menina não trabalhadora do interior uma tábua de passar que pula de dentro do guarda-roupa e despula de volta; "Não é sensacional?" diz a loirinha magricela de peitos grandes e casaco cor de rosa à outra menina com quilos a mais de botinas e meia arrastão pretas.

Factotum++ No estilo adaptações que não dão certo o filme só prova que Chinaski, na tela ou no papel, não passa de uma soma interminável de empregos bomba, mulheres que conhece no bar e acaba dividindo teto e furor sexual de meia-idade, violências de fim de noite e visitas à corridas de cavalos.

Ainda assim, Bukowski é herói de uma geração, como Seymour de Ghost World era para a menina de botinas e meia arrastão pretas. Seymour era um colecionador de discos de Blues fracassado e Chinaski foi de empregado de fábrica de enlatados a açougueiro, ainda assim ambos tinham grana para beber e viver em casas cools e aconchegantes.
Ser um fracasso em cidades americanas parece sedutor.

Samstag, November 25, 2006

Pais e Filhos (saravá Renato Russo!)

Dando uma olhada ontem numa revista "Pais e Filhos" de 70 e poucos descobri que os filhos caçulas (segundo a concepação da época) são menos bondosos que os mais velhos, pois esses acompanham a gestação da mãe e podem compartilhar o sentimento de "cuidado" que a mãe tem com o irmão mais novo, segundo a revista, isso asseguraria a "bondade" da criança. Outra coisa interessante era a colcha Paxi Concilix, que tinha ondas tão bonitas no bordado que você sentiria vontade dormir com ela, mesmo ela não sendo feita para dormir (sim, a propaganda dizia bem isso), mas o anúncio mais hilário era o "Prove que você confia na sua mulher, abra uma conta conjunta", e logo depois eram indicadas as vantagens da conta conjunta, como por exemplo o fato de que depois dela "sua esposa poderá pagar ela mesmo, direto o banco, contas de água e telefone".
As revistas sobre relacionamentos familiares pareciam fazer mais sucesso nesta época, não sei qual o motivo, mas me parece que havia uma tendência de busca por doutrinas e ensinamentos; "como passar uma camisa de homem" (não decorei, eram mais de 5 passos), "como cozinhar sem fazer sujeira" (pegue um daqueles sacos de supermercado e coloque dentro de uma panela, depois descasque os alimentos e coloque a cascas na panela ensacada, depois é só colocar o saco no lixo, sem maiores sujeiras). Havia títulos de reportagem sobre adolescentes precoces do tipo "elas estão aprendendo tudo, e agora?". Enfim, uma figura do que foi a consolidação da liberdade sexual junto com dicas sobre ferimentos com cacos de vidro e resenha do "novo disco dos Mutantes", diversão pura. A melhor fotografia era a de uma noiva vestida a caráter em cima de uma bicicleta no meio de uma estrada, a mina tinha uma cara total de desespero moldada por cabelos anos 70 e a reportagem era sobre as desilusões do casamento, com o subtítulo "relacionamentos que começam sob uma base falsa normalmente acabam sem explicação".

Donnerstag, November 23, 2006

reflexogênicas talking heads

Nasceram com as televisões ligadas e hoje lamentam com nostalgia o tempo que deixaram de agir por serem jovens num curto espaço de tempo utilizado para beber conselhos de bens sucedidos passageiros pedindo carona no futuro. Brotaram de suas barrigas flores nascentes da neve e do vento e de todas as palavras bonitas que as pessoas felizes conseguem dizer e de todas as fotografias delicadas de uma mente sensível assistindo ao Sílvio Santos. Bailando por um sonho me perdi na idéia do que tu poderias ser. Porta da esperança? Não existe em casos de distância intelectual que provoca saudades e ascos por não termos aproveitado bem o tempo de ser sincero e ao invés disso o que fizemos? Poeminhas de nostalgia e esperança; o reflexo pode ser uma cópia ou o pai do retorno ao cerne dos pensamento com fins de análise; a reflexão.
reflito, reflito, reflito kkkkkkkkkkkkkkkk pane.
Como pode o amor entre imagens virtuais? Como pode beber enquanto a fidelidade espera? Como pode aceitar enquanto o corpo nega e a mente consente? Como pode tantas perguntas clichês juntas?
Como posso continuar com isso e frequentar supermercados durante 15 minutos antes do fechamento? Como pode fechar se quer abrir? Vai abrir, já foi, voou. Não faz sentido, não faz sentido! Não contribui!
DESLIGA
FECHA
AMASSSA
se perdeu em delírios de mercosul;
Se eu pudesse me guardaria ao mais ébrio, tenro e doce pitoresco atrativo das imagens que faço de mim mesma; e me assustaria e me diria: Como posso, como posso, tão tarde ter percebido que tudo morrerá no google?

Dienstag, November 21, 2006

mickey e espelhos

"He made up the person he wanted to be and changed into a new personality. Even the greatest stars change themselves in the looking glass."
(Kraftwerk, "The Hall Of Mirrors")
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THRU THE LOOKING GLASS
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é nome de filme de Ingmar Bergman ("Através de um espelho", 1961), nome da continuação de Alice no País das Maravilhas ("Alice através do espelho", de Lewis Caroll;escritor e matemático que deu ao mundo a obra mais psicodélica da história fazendo de suas sentenças equações matemáticas e vice-versa) e nome relacionado também a um dos melhores epsódios de Mickey Mouse, inspirado, justamente, na obra de Caroll.
Atravessar um espelho é enxergar além da comunicação possível consigo mesmo ou transcender os limites do egocentrismo, como é o caso do protagonista do filme de Bergman (um escritor contemplando através da família seu fracasso como profissional e pai, num momento de insanidade da filha) que dá início à sua trilogia do silêncio("Através de um espelho", "Luz do Inverno" e "O Silêncio"), algo bem próximo do que fez Antonioni em sua trilogia da incomunicabilidade e pode ser classificado como tendência do "cinema de autor". A diferença entre Bergman e Antonioni neste quesito está, por exemplo, no talento do primeiro em suas filmagens de "Através de um espelho" durante o "lusco-fusco", iluminação natural que ocorre na transição do período diurno em direção à noite e que enfatiza a presença do termo "espelho" no título, pois tanto a luz quando a projeção são reflexos. A habilidade de Antonioni se concentra mais nos enquadramentos e nos jogos geométricos (interessante como as figuras matemáticas de alguma forma sempre se relacionam com a solidão contemplativa).
No desenho de Walt Disney fica bastante caracterizada a comtemporaniedade entre o autor e outros mestres como Dalí e Buñuel; a metáfora da contemplação está no surrealismo (objetos moralmente incorretos como cinzeiros e baralhos de carta ganham vida, dançam e se revoltam contra Mickey estabelecendo uma relação semelhante com a do homem/espelho). Mickey Mouse é com certeza o rei da animação, por este e outros epsódios em que encarna o problema existencial através da incorporação de personagens, como em "O Pequeno Alfaiate Valente" de 1938, baseado na obra dos irmãos Grimm. Mickey não é um personagem fechado em si mesmo e sim um ratinho covarde que precisa de personalidades alheias para encarar a si mesmo, e é o espelho mais animado do mundo, até hoje.

Sonntag, November 19, 2006

gebunden sein

estar preso; confinado às idéias?
A presunção é uma idéia de grandeza da condição pessoal. A índole é imbatível para as idéias/palavras alheias porém deduzível ao coração atento.
Nas mesas de cinzeiro e nas mesas dos ajoelhados-com-velas-das-igrejas grandes mágoas esmagadas revelam o caráter, esse conjunto de idéias confusas que temos de nós mesmos e no qual alguns carregam a ilusão de altruísmo, que na verdade é um excesso egocêntrico que não se suporta e explode em exageros que vem da necessidade de sentirem-se grandiosos; o altruísta é o a-favor-do-herói. O anti-herói ri de si mesmo enquanto o altruísta encarna o superboy que não cresceu para perceber a insuficiência dos grandes poderes mágicos perante às leis cruéis dos sentimentos mortais; o altruísta é um confuso.
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A confusão é uma massa indistinta de incapacidades e buracos estomacais; o estômago é o fundo, o buraco maior que se enche pelas culpas que entram pela boca. Convites negados são mesas de comida vazias. Nas mesas da igreja as senhoras enjoiadas com velas e rendas e promessas, obrigados. Na mesa de cinzeiros grandes mágoas esmagadas; e o coração entregue no fundo do copo, o homem bagaceiro no orelhão toma Belinha;

que desgraça maior do que a minha!
como sofre um homem bom!

---------------------------------------- ; sem palavras, silêncio, com elas: GRITOS> voz humana alta, aguda que revela não suportar, não endurecer, não germinar; grandes riscos dos que contradizem mas não explodem em gastrites nervosas. O grito é um clamor, um protesto e não uma profanação. O grito é o respeito e não a pena. E por isso morram mais ritalinas e mais rivotris-guys, que se alagam na gordura que vem do cansaço e da retenção de líquidos e não da cerveja-no-bar-com-amigos, ou em ambos; e que se quiserem, continuem, MAS QUE GRITEM para não sufocar o tempo que corre em silêncio, NO fun e NO alarmes de celular. Que continuem fingindo nos telefones e eméssenes; sabotando a confiança e a informação da vivência profana com mãozinhas desdedadas de carne e sabor caseiro, MAS QUE GRITEM! Que chorem, que berrem e que durmam, como bebês ruivos e homer simpson.

Mittwoch, November 15, 2006

Tajna

[dessangrar]:1. tirar o sangue 2. fig. debilitar, enfraquecer privando dos meios.
esvair-se, esgotar-se em sangue; perder o que é necessário para o seu sustento.

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O velho estava lá, num dos bancos da frente virado para o cobrador, como não enjoam, meu deus, como não enjoam quando parados e ao mesmo tempo de costas para o fluxo. O vermelho da rosa murcha no colo do velho, os olhos tristes. As ambulâncias correndo ao lado, dos olhos dele. O calor, o sangue; da cor da rosa; que ganhou a bonitona de todos os sorrisos para sua teta; do velho, assim que se encontraram, do outro lado da roleta. Desceram, atravessaram a rua. Tajna, a moça da recepção, viu e, atônita, apertou o botão. Subiu o portão eletrônico e eles entraram, o velho e a dona; da rosa. A pé é foda. Tajna alcançou a maquininha de débito; "paga na entrada". A tetuda com o cartão largou a rosa e apertou, sete dígitos; o dedo contra a maquininha; os olhos, do velho, contra o tempo. Os olhos, de Tajna, contra todos. Ganharam uma chave, a dona e o velho, enquanto Tajna disse, não dizendo, pra passar o próximo, e mais um parou tímido, apertando os dedos contra maquininha; ainda bem que agora só restam os apartamentos luxo sem banheira e secador de cabelo. O velho e a dona da flor, não sei. Ou os dois ou o 2? O meio é uma ilusão, um sempre precisa perder o que é necessário, para o sustento do outro. Tajna largou a maquininha no balcão, pegou a escova de cabelo, penteou os de baixo, atordoada? Quarto 115, chave reserva; correu, achou, a rosa no chão, do lado de fora. Gritou "serviço de quarto!" e girou a maçaneta, na outra mão, a escova; entrou; o velho e a bonitona na cama, ele por baixo e ela por cima; Tajna enfureceu a face e cravou a escova de cabelo no orifício traseiro da bonitona de meia idade. E então, só então, um velho reconhece sua filha? Talvez se ela usasse decotes, teria a visto antes.
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"O Cupim" filme de Carlos Manga de 1959 produzido pela lendária Atlântida Cinematográfica, mostra bem como corrói divertido este sentimento chamado ciúmes. A melhor cena da comédia é quando o mordomo defende a vitalidade que o ciúmes (cupim do amor) empresta à relação, ao que a patroa retruca "Como tu podes pensar isto? Não vê como eu e Tristão levamos uma vida tão boa sem ciúmes? Não vê como nos amamos, como nos beijamos e nos abraçamos quando ele retorna do trabalho?", e o mordomo responde "Vejo, madame, vejo. Vejo mas não me convenço".

Donnerstag, November 09, 2006

Lunaris

Da infância;
os jardins, os vestidos brancos leves roçando na grama e observados pelas bermudas xadrezes e bocas babando melado de pirulito; a bolsa vermelha da Mônica sendo roubada por uma precoce vaidosa de cachos enlaçados; os meus cabelos, roçando no presunto disposto na mesa de aniversário para a mão alcançar o negrinho. A foto: em escolas de luxo, crianças sempre blasé e lustrosas sem idéia da diferença entre carros pessoais e comboios urbanos.
Eu recebia cartas de amor e ao voltar da escola no carro de meu avô mostrava timidamente o envelope enfeitado com marcas de batom. Lesbianismo infantil? Não, era um "ele" o remetente, mas ditava as cartas para a governanta, não muito culta, mas que melhor sabia se expressar com palavras do que um garoto e ainda beijava os envelopes. Eu, de qualquer forma, não ligava; só corria em volta da escola tentando recuperar a bolsa vermelha da boneca, volta e meia vinha um, chamado João, pegava na minha mão e me levava para deitar na grama e cheirar a margarida olhando as nuvens por detrás dos galhos das árvores; todos os ambientes parecem tão grandes quando somos crianças; depois, quando lá voltamos, são sitiozinhos irrisórios.
Eu então deitava ao lado de João, enquanto os outros corriam, brincavam de ser polícia, fugitivo ou simplesmente dançarinos. "Ele" pedia à professora que contasse histórias de terror. João talvez soubesse que "ele" me amava, mas estava mais interesado em pegar na minha mão e sorrir bafos de Youplat, enquanto o outro me abordava na hora da saída e me entregava as benditas cartas com marcas de batom, as quais eu recolhia da mão de sua babá e o chamava para um local mais afastado do portão de saída; mostrava o buraco feito para abrigar o ar-condicionado, o qual ele observava atentamente e, só então, eu amassava a carta e enfiava entre duas grades que protegiam o buraco. Um dia ele chorou, e eu sorri. Na verdade, eu sorria sempre; e talvez tenham sido os primeiros sorrisos, assim, de dentro da vaidade mais arraigada.
É tarde, é tarde, é tarde já dizia o coelhinho.
Me convenço de que o ajudante da memória é o sonho; duas crianças vestidas com mantos vermelhos e coroas douradas correndo por uma floresta monocromaticamente verde em direção a um telefone antigo e redondo, também vermelho, sobre um banco de madeira em meio ao capim deserto. Ela atende, e uma voz do outro lado diz que o menino rei a fitando é um apaixonado. Ela sorri, como uma rainha.