Dienstag, März 27, 2007

float on

Então ele veio andando com sua barriga, sua careca e sua camisa listrada, e foi como se você tivesse de novo 5 anos e vestisse o melhor vestido do armário para ir ao jardim de infância.
[A infância é uma invenção cruel que culmina no planejamento bem sucedido de uma máquina de frustrações com fotos coloridas em revistas que reconhecem os melhores de todas as áreas.]
No mundo real é aconselhável carregar uma garrafinha com água e não olhar para o termômetro que aponta 33 graus em algarismos vermelhos contra a noite sem promessas. E tudo é mesmo assim tão de doer na barriga e suar no nariz; movimentos corporais involuntários que revelam o caos individual e (abram alas para mais um clichê do peito) até que um dia passa alguém como ele e como nunca você não sabe como dizer, explicar e nem sentir direito; mas, assim, escrevendo, parece tudo tão mais nítido enquanto o amor entra pelos seus ouvidos até o final da faixa isolada/escolhida do mp3; quando então, entre um cruzar de pernas e um rosnar do estômago, o silêncio volta ser rompido apenas pelo som dos dedos no teclado. E é tão triste um amor morrer assim no teclado, enquanto ele continua a vagar nos seus sapatos suplicantes pelos beijos de admiração e olhando para cima enquanto no fundo dos olhos transparentes passeiam suspiros de alunas secundaristas. E você sofre espremida em uma bolha vazia de ar. E o calor e os ventiladores continuam, escorrendo nas paredes o líquido gasoso de um arrastar de desejos sujos de pêlos que ventam em um arrepio gástrico; um amontoado de palavras que se conhecem fúteis e inchadas; o fio acorrentado de idéias murchas nos lábios depois de digeridas por um apetite seco; sai, entrega e morre. Você faz, você consome. Aquilo que se cobiça e não se desfruta faz mal às vísceras de porco que foram perdidas nos buracos da sua parede mental. A mente é um computador inimigo do prazer natural; pensar nos faz vulneráveis, expor nos faz fortes; o mundo é um grito por água e civilização. Mas, bem no fundo, o que eu queria dizer é que depois de você jamais conseguirei ser um deserto de plástico novamente.

Sonntag, März 25, 2007

prezado martírio, eu sofro.

{as pernas quentes por baixo da calça de lã; no sol escondido por trás de canções de uma nota, só, nos discos usados metidos em plásticos; rasgos. retalhos. revoltas nas ondas de calor repartindo cabeças de metal aos papéis.}
O meio do vício fica na esquina do peito com o fundo dos nódulos, disse o cigarro de palha ao suco de laranja.

- eu não estou entendendo.

[Just watch her falling down.]

A menina era assim tão linda em suas blusas pretas de bolinhas vermelhas ou em seus pijamas de peixes e ursos. Ela era simplesmente tão doce em sua delicadeza de óculos de plástico no rosto pálido e fresco; ele amava a menina. Ela era simplesmente tão incrível em suas danças malucas e dentinhos; tão colorida em sua elegância monocromática; tão móvel em seus silêncios musicados. O rapaz aguardava na sala amarela da vida.

As pernas frias despontando no lençol alvo de bolinhas de pele suja, a água viva em túneis de ilusão. O cão. A inveja confessa em frente aos retratos nos murais de plasma. O meio do amor fica no fundo do pé na esquina das unhas, disse o suco de laranja ao cigarro de palha.

- eu não estou pensando.

[I’ve got to see her again.]

O rapaz era assim tão confuso em suas palavras imprecisas nos lábios cercados de cravos. Espinhos era o que ele gostava de sentir. Ele era assim dão doído em seus sentimentos de inferioridade em um xadrez contínuo de linhas verdes. Musgos. Nas cordas do peito era unicamente tão drástica aquela prisão de gritos e bocejos. A menina corria de mãos dadas com a morte.

Os balanços de angústia e as formas curvadas da noite nas sombras. O medo das calorias no copo de leite. Imagens feitas de palavras são soluções perdidas, ou jamais vistas.

Dienstag, März 20, 2007

a calça e a manga

"era um amor imaturo";
um dos dois concluiu na mesa de bar sobre aquele romance de msn, enquanto o outro contava sobre não se sentir confortável em um vestido de lolita ou em uma saia escocesa.
o amor é tanto imaturo o quanto é triste o fim prolongado da vida?
a liberdade da falta do medo; o regresso é o próprio fim do caminho nas falhas do corpo; a imagem parada e a letra atleta. o amadurecidmento libidinoso da manga que morre nas calças.
[a fixação reside na problemática chamada não-adaptação de um instinto à progressão saudável dos outros. a falta de ritmo do instinto responsável pela fixação acaba deixando-o no meio do caminho, naquela parte da evolução do corpo humano na qual foi convencionada a idéia de que os estagiários reestruturariam as imagens recebidas pela retina aos moldes do ouvido no fundo da pele. as representações encenadas. os diagnósticos montados. os muros erguiam-se. as areias desabavam. mares engoliam tatuíras em baldes.]
jesus e deus eram a mesma pessoa.

Der Versager

Morava com os tios doentes em um bairro tranqüilo da cidade, uma tranqüilidade que contrastava com os modos angustiados da família. Não gostava de família, não suportava a idéia de que tinha algum tipo de compromisso com pessoas que o haviam ajudado desde a infância; a justificativa era de que, mesmo assim, não tivera uma infância feliz. Não poderia salvá-los, por que lhe ensinaram muitas coisas, menos a salvar uma alma. Que dirá duas. Que dirá um corpo. Ficava sentado depois de um dia de trabalho na frente do modem que piscava acusando falta de conexão. Olhava pro modem, o modem o olhava, nada acontecia. A mesma luzinha verde sempre piscando, a raiva do provedor, da linha telefônica da empresa privada. Uma privada. Cheia. Lotada. Transbordante. A tia reclamava na sala ao lado. O timbre da voz era insuportável, o tom das palavras mais ainda e, as palavras, nada diziam de novo. Ele sentia raiva, e a culpa por ter raiva. E a culpa pela culpa de ter raiva no lugar do ânimo e da desenvoltura necessária para o sucesso. Ele achava que seria um homem de sucesso, os próprios tios confirmavam, na infância. Criança brilhante, adulto próspero. O clichê mais cruel de todos, pensou. A gravata apertava o pescoço, mas ele não a soltava. Não conseguiu sequer abrir as braguilhas para relaxar a barriga marcada pelos elásticos da calça. Marcas vermelhas. O modem piscava. Sem internet, ele estava perdido. Não conseguia mais estudar, ler, sequer mover-se. O modem piscava. Quem sabe, um pouco de Fernando Pessoa antes de dormir, depois que os tios estiverem deitados e o computador esquecido aguardando a solução divina. Fodam-se as reclamações da tia, ele queria um milagre para o modem, e só.
Ele se sentia só. Só no sentido de pouco, só no sentido de solidão. Naquele dia que o modem pifou ele tinha saído do emprego. Uma merda de emprego, mas tinha internet a cabo. Agora ele saiu do emprego e o modem estragou. Em breve iriam chamá-lo para outro emprego, e ele precisaria da internet disponível. Algo com cadastros. Sites. Ele se sentia sem lugar; não bem sem um lugar ao sol, pois desse já tinha desistido. E se agora o modem estivesse funcionando, o amigo lhe diria no msn que ele é um inseguro. Sim, ele é um inseguro, um medroso detestável, na sua própria opinião. Algumas pessoas têm mais medo do sucesso do que do fracasso, dizem. E, realmente, o fracasso não lhe comovia. Mesmo ali, sem emprego, sem faculdade, sem modem; tudo que ele conseguia fazer era manter a gravata apertando o pescoço e as calças estrangulando a barriga. Assim como o fracasso, sua história não tinha um final. Assim como as histórias, os fracassos são um estado de espírito, uma raiva da proximidade, um enjôo da dor.
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Dois dias depois, ainda sem modem, ainda com os tios doentes, ainda sem emprego, o rapaz se sentia culpado agora pela falta de utilidade no ramo das prestações de serviço. Sentia falta do trabalho ao mesmo tempo em que repudiava a idéia de sentir-se pouco digno apenas como um estudante de Filosofia. Na Alemanha, estudar é uma profissão; pensou. Os tios não falavam nada, mas ele notava em seus escassos gestos o pouco caso, uma quase indiferença; na hora das refeições, as poucas refeições que o rapaz fazia em casa. Por vezes ele preferia ficar ao relento tirando fotos digitais do movimento das nuvens, por outras lhe agradava apenas sentar em alguma praça ou escadaria e fumar o seu cigarro. Chamava o cigarro de “meu melhor amigo” nas conversas entre os amigos íntimos, para logo depois ser apossado da culpa pela adoração aos vícios mundanos e prejudiciais. Morreria de câncer, talvez. E voltava a pensar na morte; quem sabe, fossem os cigarros. O rapaz sentia por ainda outras vezes, quase todas, o olhar inquisitório da humanidade. Nesses momentos, achava suas roupas adolescentes demais e seus trejeitos um tanto afeminados. E o modem, que continuava estragado, durante esses dois dias continuou a completar todos os pensamentos auto-reflexivos do rapaz, confirmando que tudo com ele só podia estar errado. Mesmo seus estudos de Filosofia não ofereciam grande atrativo naqueles dias de calor; pegava um livro ou outro, mas só conseguia mesmo ler o “livro do desassossego”. Lia na cama, de noite, depois do cigarro, em frente ao ventilador. Cansava os olhos até não poder mais e só então apagava a luz; não sem antes lembrar que não havia ajudado a tia a retirar os pratos da mesa de jantar e que, talvez, amanhã ela estivesse morta.

Montag, März 05, 2007

Sunday you need love Monday be alone

A TRIO (banda de rock alemã que acabou hit da Volkswagen e da Coca-Cola usando apenas uma guitarra, uma bateria e um vocal cômico) começou em 1981 e acabou em 1985, talvez por isso muitas vezes seja inserida em um movimento chamado Neu Deutsch Welle (nova onda alemã). A Neu Deutsch Welle era a princípio um movimento underground influenciado pelo punk rock inglês, a música new wave e, principalmente, influenciado pelo som e o ritmo peculiar da língua alemã, mas, como era de se esperar, tudo acabou em "mamãe de bandas de um só hit". Uma representante da nova onda alemã é a banda Mittagespause (a pausa do almoço).

Ainda sobre a TRIO, destaque para os hits Sunday you need love Monday be alone e Ja Ja ja.

[If you won't be my brother whatchu wanna be]
[If you won't be my sister whatchu wanna be]

O texto por trás de Ja ja ja fala de encontros, desencontros, maquiagem, consumismo e álcool, enquanto Sunday you need love está mais para cafajestes convictos (assim como ja ja ja está para as pedras voadoras). O Clã das Adagas Voadoras é o nome de um filme chinês no qual as pessoas voam; movimento caracterizado pelo simples manter-se aéreo, por meio de asas e máquinas, ou ainda, um sinônimo para a locomoção surpreendentemente rápida.

[As mulheres que cuidam de cachorros nos contos argentinos acabam tornando-se mães de aluguel de defunto.]

É sempre necessário um aquecimento prévio antes ou durante o falar do que importa: quem sabe um dia sentirei saudades dos meus tempos de universitária otária.

[Subir e descer escadas que são bafos e tiros de gritaria e tinta. Descer e voltar à calçada movediça e seus moradores com cheiro de grama molhada que sinto do alto dos meus passos quentes.]


Eu não gosto de estar sempre no mesmo ambiente; o apego não é nada além de uma simpatia. Fácil é uma palavra que não pertence ao vocabulário adulto. Acomodar-se é fácil, desistir também; desistir é tão maduro quanto um cigarro velho.

Eu hoje vim olhando as casas, as pessoas, as vozes e os calores; queria contar de tudo isso e do sufoco de não imaginar o grito. E então percebi que o grito não pode ser imaginado, criado, dialogado e todos esses ados e ervas da convenção social. O grito não tem explicação, não tem alarde, não tem cor e não tem bom gosto. O grito está sozinho. Ja, ja, ja.

Donnerstag, März 01, 2007

But never guess how the him would scream

Estava ouvindo Flaming Lips, mas troquei para New Order. Me sinto tocada pelas mãos do próprio deus, o senhor que nos ilumina rumo à escuridão eterna. Fogo, chamas, lugares abafados, Ian Curtis. Houve uma enchente de ratos mortos em Manchester quando Ian Curtis arrancou a própria vida de dentro da alma (e é interessante como o termo “própria vida” dá uma idéia de suicídio), quando homens arrancam a vida de dentro da alma, os ratos transbordam. Agora penso que minha substituição de Kurt Cobain por Ian Curtis tem um fundamento por demais auto-destrutivo.

(...)

Percebo que não consigo explicar meu amor de forma lógica e racional e nem mesmo de forma nonsense, só consigo pensar em solidões pesadas de meninos vestidos de preto tomando cerveja nas calçadas de outras cidades, cidades às quais eles não pertencem. E penso que chegaram de bicicleta. Imagino um homem lindo e glamouroso enchendo os olhos das lágrimas mais transparentes que o líquido da garrafa. A transparência é uma virtude? Pode ser, mas impossível imaginar a entonação ou a altura de seu grito.

Não, eu não acho clichê falar da impossibilidade explicar o amor. Acho que o racional pode dar conta, sim, acontece apenas que ele é tão transparente, que deveria escrever um livro. Eu li no bar que há pessoas que são tão sinceras que precisam escrever (um tanto demagógico?). Mas não vou emitir opiniões, só fofocas infundadas (no meu peito-precipício lá lá). Digo ao gigante olho inchado dentro de sua calça jeans, não se reprima!

Falar com o povo é falar consigo mesmo. [É o tchan!] é um grupo musical que representa o ser humano refletindo sua condição perante a sociedade.

Sleep well – feel well.

Mittwoch, Februar 28, 2007

Cameron Diaz e Drew Barrymore fumando um


Daqui pra frente, só fofoca. Teufelswerk's new way of life. Praia, chapéis, bronzeadores, ceú azul. Daqui pra frente, second life. Minha avó disse que eu não deveria me preocupar com sua morte; ela disse que teve uma vida boa, mas, é claro, só depois que parou de trabalhar. Drew e Cameron trabalham, brigam com os namorados, fumam um. Ninguém pensa nas plantinhas. Ninguém sabe que dentro de cada semente existe um embrião que carrega uma vida ou centenas delas, revestido por uma camada semelhante à placenta do útero. Comer feijão também é assassinato. Eu proponho o canibalismo. Milhares de corpos desperdiçados apodrecendo sem utilidade. Inspiração para filme de terror que se transforma em alimento. Ninguém pensa nisso, ainda. Mas sempre alguém já pensou. É claro que pensam antes em si mesmos, mas, uma praça, um violão e alguns malabares podem abrir várias cabeças para sempre. Quem precisa de um baseado. Vamos salvar as plantinhas e o meio ambiente. Eu penso em tudo isso ainda com o suor no rosto, recém chegada de um ônibus cheio de torcedores de futebol.

Sonntag, Februar 25, 2007

Das Büro



meu peito é uma garrafa vazia?
o mundo nos faz péssimos pais e ótimos avós, mas avós noramalmente desenvolvem doenças degenerativas; o corpo é falho.
me distraio observando a criança de 4 anos maquiando a boneca com pincéis de teclado. o homem de setenta e poucos que dorme em frente à banca de flores em outro país. eu só queria salvá-los.
as cores que entram pelo cabo USB. eu só queros que continuem vivos.
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a cozinha azul e os robôs vestidos de borracha. a roupa branca, suja e furada, o aparelho que urina líquido potável acoplado nos bolsos de metal. a falta que sentiam do cheiro de suor correndo na parte traseira do joelho. eu só quero que me deixem viva.

onde está o meu amor?

eu só quero um pote de leite vermelho, mas, diná, é só um coelho com um relógio.
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a mesa do escritório que meu avô chama de “büro”. os boletins do posto de saúde. a carterinha do convênio. o livrinho com exercícios para os músculos inferiores. as receitas médicas organizadas em pastinhas amarelas com o nome do médico preso em fita durex. eu insistindo para que ele tenha um geriatra, um médico fixo, ele dizendo que geriatra "é tudo charlatão".
meu avô, apesar de um homem durão, sempre enche os olhos d’água. a boca não mexe, os braços não abraçam e nem as mãos tremem, mas os olhos sempre denunciam. óculos escuro é “coisa de bandido”.
e então tem esse olho-aquário que aparece quando meu irmão imita seu jeito de vestir as calças mais perto do peito do que da cintura (aí o olhinho avermelha enquanto a boca engole uma risada seca e murmura uma espécie de expressão sílvio santos, só que sem abrir a boca. difícil imaginar, eu sei. mais difícil é esconder o constrangimento nessas horas, quem choraria por uma piadinha tão boba?). às vezes acontece quando ele conta de algum amigo que morreu. lembro de uma vez ter ido com ele numa dessas reuniões de amigos do colégio. outro dia perguntei por quê não faziam mais as reuniões, e ele disse que todos os colegas haviam morrido.

Donnerstag, Februar 22, 2007

A incomunicabilidade



"A noite" e "O eclipse", de Michelangelo Antonioni.

A coragem

E então vem aquela náusea de café, como a alergia de todos os gostos rotulados e nocivos. Frágil; a vontade de derreter em uma cama macia de lençóis embolotados do próprio suor. Feio, sujo e sincero. Caio Fernando Abreu era um mauricinho?
Entrar molhada na chuva e jogar as meias na única poltrona qualquer e depois deixar a porta do banheiro aberta; não se deve julgar uma pessoa até o dia de sua morte.

Um dia de tempestade foi o ponto de partida para as reflexões de Diná; a chance em uma urgência. Diná era uma compulsiva por certezas.
[As idéias delirantes são ensconderijos de sentimentos primários esquecidos.]
A obsessão pelo que se julga inabalável habita nos devaneios, corre por essas vontades primitvas abandonadas que se dissolvem nas idéias ansiosas. A criança excesssivamente agitada recebe adjetivos idênticos aos da criança que se opõe à moral.
Diná olhava pela janela do ônibus a tempestade que se consumava agora. A mesma já prevista no céu de nunvens cinza-chumbo iluminado apenas pelo alaranjado das lâmpadas penduradas aos postes cheios de fios no alto da avenida em um final de tarde, enquanto as duas se dirigiam ao ponto de ônibus.
O ponto de ônibus que parecia tão longe e os raios tão perto, a mãe que parecia tão alegre elogiando o ar fresco que denunciava os pingos nos óculos de Diná; lentes e janelas no fundo de todos os vidros. A mãe tão alegre, almost dancing in the rain. Mas isso foi antes.
Antes do ônibus cheio e aqueles homens lá no fundo gritando alguma coisa que fazia a mãe abraçar a filha. Diná não tinha medo dos homens, tinha medo da tempestade e não queria ser abraçada. Foi quando pensou que o simples fato de desvencilhar-se da mãe seria uma afronta; mesmo a felicidade da mãe a confrontava.
No entanto, cumprir o dever de forma excessiva a condenaria para sempre a passar o resto da vida em uma praça com balanços e gangorras mas entre muros altos como um reforço contra os desejos. Diná julgou a reflexão por demais ameaçadora. Enquanto isso a chuva aumentava e os homens gritavam palavras confusas que assutavam a mãe, Diná sentia o aperto dos braços pegajosos que apesar de tudo não faziam com que ela se sentisse segura ou mesmo próxima; a criança nunca sabe se a ausência é uma distância, uma alienação ou uma morte. E assim, Diná levantou de seu assento e foi sentar no colo de um dos homens que gritavam.

Dienstag, Februar 20, 2007

Redenção

Eu me exalto.
"O ano em que meus pais saíram de férias" não é um filme sobre a ditadura e nem sobre a infância, é um filme sobre abandono. Ok. E o Iñarritu não é um cara tão ruim.
"Little Children" (porcamente traduzido para "Pecados Íntimos") é sobre dois adultos casados e com filhos que se aproximam devido à síndrome de madame bovary que aflige alguns pais e mães de família. Trata-se de recuperar a infância/esperança perdida; a infância é uma invenção, afinal, e o casamento/adultério também. O filme é mais bobalhão do que todos os outros da semana, mas eu gostei, pelo simples fato de ser mulher. Eu sou bem mulherzinha, às vezes. Eu não quero que coisas ruins aconteçam mas ao invés de tentar impedi-las ou amenizá-las eu vou ao cinema. Eu não sou uma mãe moderna, não tenho família para sustentar mas tenho avós que caem no chão e quebram as costelas. Toda vez que vejo uma ambulância na rua penso que meus avós podem estar dentro dela. Minha mãe não se preocupa como eu, acha sempre que os problemas são pequenos e fáceis de serem resolvidos. O amor é indefinível e bizarro, essa coisa de querer cuidar/estar com alguém e ao mesmo tempo um desejo intrínseco de auto-afirmação dos envolvidos. Quando tinha 17 anos eu escrevi uma poesia que dizia que o amor era como as plantas: se deixamos de regá-las, morrem sedentas; se regamos demais, se afogam. Hoje penso que o problema não é esse. Não importa o quanto você cuidar de um relacionameno; filhos, contas e doenças podem afogá-lo. Aí ou você morre se debatendo até o fim ou mata a sede, é uma questão de extremos. Só que no outro extremo está um terceiro elemento, virtual ou palpável; ou você mata a sede bebendo de outra fonte ou morre afogado e seco ao mesmo tempo.
Mas é fácil ver as coisas boas e simples de uma vida conjugal sem filhos e adultério; como sexo em motéis diferentes com trinta por cento de desconto imprimindo o cupom da internet e chopps pagos com visa electron. Ou as coisas mais complicadas de se apreciar, como a beleza colorida dos dias de sol e gramados verdes diante de seus olhos sóbrios, vigiando bem a máquina fotográfica.
[Se veres uma criança, não confies por ser uma criança, ela vai te sacar.]
A Redenção é uma Ameaça.
Aceitar é uma espécie de morte; dentro de uns 30 anos não haverá mais lugar para reflexões blogais, ou as pessoas estarão desmaiando num calor de 60 graus ou trocando todos os eletrodomésticos por coletes à prova de bala e camisas de força; a sua própria camisa de força comprada por ninguém menos que você, o mundo te convencendo a enlouquecer e reprimir, cuidar e agir. Até rimou. Confissões são poesia, e eu sou você e você, um nenê.

Babel

Um tanto cansativa essa safra já molenga de filmes ao estilo "E.U.A, nosso maior inimigo". Um retrato da época é o diretor Iñarritu, um mexicano obsecado por uma mescla de acidentes, sangue e sofrimento, que acaba compondo um tipo bem conhecido de filme; apegado à construção de cenas um tanto apelativas (ajudadas, em geral, pelo molho de tomate), com o principal objetivo de resolver a ansiedade de estímulo. Contudo, Iñarritu é considerado um verdadeiro "crítico social", usando como matéria prima de sua obra acidentes nos quais os "pseudo-culpados" são sempre mexicanos ou assemelhados prejudicando norte-americanos da alta sociedade. Somam-se a isso as cenas entediantes, porém fotograficamente trabalhadas de forma magistral, de sofrimento e sangue das personagens norte-americanas; sangue e sofrimento suficiente para torcermos por elas até o último segundo do filme, quando percebemos que mesmo sem a nossa torcida os norte-americanos sempre se saem bem e ao tempero final-cinderella. E percebemos que os pseudo-culpados de cabelos negros nem eram tão maus assim.
Iñarritu já tinha dado o recado nos dois filmes anteriores, mas preferiu fazer um terceiro mais-do-mesmo e depois chamar de "trilogia". Inusitado mas pertinente, quem sabe, lembrar Antonioni, que usou na década de 60 o mesmo recurso em sua "trilogia da incominicabilidade", mas foi sincero o bastante para assumir sua futilidade existencialista, bem diferente de pretender prêmios provavelmente envolvidos com a máfia em cima de "preconceito" em filme de 25 milhões de dólares e com um galâ quente para cada nação envolvida. Despretensiosos e bobalhões, os melhores filmes anti-racistas que existem continuam sendo as comédias da sessão da tarde com o Eddie Murphy. E as melhores produções mexicanas continuam sendo as novelas sobre preconceito estético ao estilo "Topázio", a cega deslumbrante.

Sonntag, Februar 18, 2007

ainda sobre Ian McEwan

Eu nunca li Proust.
No entanto, ontem, depois de assistir "Pequena Miss Sunshine", finalmente entendi o que eu quis dizer no post do dia 29 de janeiro: os piores momentos de nossas vidas nos tornam quem somos. Quando o tempo passa rápido, estamos sendo felizes e inúteis para nós mesmos; mas, eu sei, é preciso ter cuidado com esse tipo de interpretação leviana. Não diria que todas as aulas chatas em que os minutos não passavam me tornaram quem eu sou mas, me tornaram, ao menos, mais paciente; no entanto, não foram os "piores" momentos da minha vida, então, não é um bom exemplo. Também não diria que o tempo que utilizei para desbravar lugares novos, quando as horas passam voando e parecem sempre insuficientes (e que talvez seja dos tempos o tempo mais bem gasto e feliz) não colaborou para construir quem eu sou. Mas, em geral, ainda acho que as pessoas são construídas pelos traumas, e que os traumas construídos em um minuto transformam esse um minuto em dez e assim por diante. E acho extremamente louvável colocar isso em forma de literatura, como fez Ian McEwan em "A criança no tempo". Considero um bom exemplo a alucinação do personagem principal:
um homem aos 40 e poucos anos vivencia o momento em que os pais estão discutindo sobre o seu nascimento (ou aborto) numa lanchonete; isso é narrado em uma passagem que enfatiza, inclusive, o homem em pleno transe reproduzindo com exatidão as bicicletas ("A MARCA da bicicleta GRAVADA EM LETRAS DOURADAS") que os pais utilizavam de fato no momento real (ou primeiro) do acontecimento; a ilusão do tempo real desvendada pela insanidade.
Aqueles três minutos de transe representam o início de uma vida inteira, e as bicicletas talvez sejam uma metáfora da velocidade e da MEMÓRIA (aquela que grava as marcas com letras douradas). Qual o motivo da obsessão do homem por qualquer tipo de velocidade exceder a sua obsessão por qualquer tipo de início?
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Ainda sobre tempo e memória, outro filme recente com crianças e idosos: "O ano em que meus pais saíram de férias"; mas, ao contrário de "Pequena Miss Sunshine", que concentra ao redor da criança uma série de diferenciadas problemáticas universais como morte, tédio e fracasso, o filme brasileiro limita-se a focar as verdades/reações infantis construindo um clima que leva a um saudosismo da infância mesclado à informações rasas sobre a época da ditadura; ou seja, mais um da série "para gringo ver". Também tem o queridinho da classe média bem informada que "se mata de rir" graças à sua super-útil consciência social (será o novo humor requintado?): "Borat", sem muitas crianças e idosos porém com bastante mulheres recheadas de plástico e louros de bochecha vermelha que rendem alguns (poucos) momentos antropológicos interessantes (mais interessantes que engraçados, na minha opnião.); mais um da série "Michael Moore is God", porém sem a participação do último rebelde americano chacoalhando com a nação do alto de seus duzentos quilos e remédios para o colesterol. Ah, os britânicos são TÃO refinados.

Freitag, Februar 16, 2007

Matoso

Matoso era um neurótico, o que significa alguém cujas emoções intrínsecas do espírito se movem de tal forma que nelas uma força interior tida como "superior" domina outra entidade interior; essa outra entidade, por assim dizer, corriqueira e manipulável, mas também movimentada por obsessões ligadas ao narcisismo em seu sentido mais contemplativo conformado.
A Força Superior Interior agiria em Matoso (hoje) como uma força superior repressora que compensaria a falta de autoridade do pai durante o seu crescimento como indivído. A falta do pai na infância, especialmente em situações nas quais a criança não tem como sorrir sem um pai ao lado - confie, você nunca verá uma expressão feliz de uma criança sem os pais nesses quase estados de urgência social completa (ex. festinhas de final de ano no colégio, natal, dia dos pais)- fez dele, além de um filho único que amadureceu solitário e triste (longe da janela temendo as abelhas no sétimo andar de um prédio de apartamentos de 1 quarto onde vivia com a mãe), uma vítima da doença; a autopunição.
Em seus sonhos, Matoso via-se a enfeitar bolsos acoplados a roupas de bichinhos de pelúcia, além dos constantes pesadelos com laranjas e nascer do sol. Os elementos infantis teriam sido escolhidos (criados) pela Força Superior Interior (ou Força Exterior Repressora) para mascarar os objetos realmente desejados por Matoso, evitando assim torná-lo um homem angustiado.
Imagens primitivas como todas aquelas relacionadas à recreação, alimentação, vida e morte; estes elementos não chegavam a causar angústia nem ao menos durante o sono, ou seja, os desejos foram totalmente censurados pela Força Superior "Pai Ausente Compensado" Interior.
O sonho angustiado, como não era o caso, já seria uma libertação da neurose, ou seja, a própria angústia. Matoso, como doente neurótico, estaria na realidade se punindo ao censurar seus próprios desejos através de uma construção mental particular e repressora da figura paterna. Nunca na vida o pai o havia presenteado em datas comemorativas, que dirá surrá-lo com uma cinta de couro quando batia na mãe. A punição é uma espécie de alívio; podemos pensar, por exemplo, no alívio como uma "diminuição de peso" e na punição como "cumprimento de pena"; à medida que se cumpre a pena, o peso (meses, anos) diminui. E, desta forma, podemos afirmar, enfim, que Matoso, sonhando com metáforas infantis/ engolidoras de desejos/angústias pela imagem mental paterna, satisfez sua necessidade de encontrar a verdadeira cinta de couro interior; que para sempre o curou dos desejos sexuais narcisísticos prejudiciais transformando-os em buracos de tecido e enchimentos de algodão.

Mittwoch, Februar 14, 2007

Bons ares


Existe um conto do Cortázar em "Las Armas Secretas" cuja personagem principal é uma senhora com ares muito elegantes que costumava servir a grandes outras senhoras da alta sociedade de Buenos Aires, mas que agora não costuma mais ser chamada para servir em festas, talvez pelo envelhecimento das feições, talvez por causa da crise, provavelmente pelos dois, afinal, Cortázar, como a maioria dos bons autores, sempre mistura o lado político/social com problemáticas bem existenciais/individuais das personagens;


I AM YOU AND WHAT I SEE IS ME!


O conto começa com a personagem principal recebendo em sua casa uma madame, e só percebemos que essa personagem principal se encontra em uma classe social inferior a da madame quando a mesma (a personagem principal) lamenta sua falta de cuidado ao "quase oferecer um chá" para madame (e isso pegaria muito mal). Toda essa "áurea" do conto tão bem trabalhada pelo autor acaba sempre me confundindo (como em "Cartas de Mamá" ou "A Casa Tomada") e tenho certeza de que ele faz de propósito. Aliás, o que importa a classe social da empregada se sua atmosfera é tão ou mais glamourosa do que a das pessoas que a contratam? O que importa a relação entre dois ou mais indivíduos se estão envolvidos na mesma rede de angústia? Em um conto, acredito que o que importa é justamente mexer com nosso valores e impressões sociais.



Mas, clichês a parte, o que eu queria dizer é que esta madame visita nossa personagem para contratá-la (e o trabalho estava escasso) para servir em uma festa, e nossa personagem regojiza-se com a idéia de novamente tocar em talheres de prata e copos de cristal; ah, como seria lindo limpar aquelas torneiras de ouro e coisas do tipo. Mas, chegando na festa, a empregada de atmosfera chique descobre que foi contratada para tomar conta dos cachorros da madame (que possuem quarto e colchões próprios).


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Eu não terminei o conto (que se chama "Los Buenos Servicios") e nem pretendia fazer uma análise do mesmo, apenas mostrar como me sinto, de volta ao Brasil.

Não, eu não estava na Europa, estava na Argentina, tão South America quanto nós, e no entanto tão mais lustrosa de cores douradas que emanam seus habitantes. Há mendigos? Muitos, e dormem escondendo o rosto em guarda-chuvas. Pedem dinheiro? Pedem, e não só dinheiro como desculpas por estarem solicitando dinheiro. Não que eu tenha considerado isso louvável do ponto de vista da "boa educação" e sim pelo fato de nos tratarem de igual para igual e não naquele tom de "me agradeça já que não estou te roubando"; o que acontece justamente por também serem tratados de igual para igual por pessoas de classes mais elevadas. Eu, acostumada a cenas clássicas do tipo maltrapilhos sendo escurraçados por donos de bar na Cidade Baixa, fiquei emocionada com o carinho do segurança do Burguer King com algumas menininhas de rua. Não que ele tivesse dado um hamburguer a elas nem paparicado nem nada, mas o jeito como as olhava e sorria e falava em um tom paternal me comoveu. No McDonald's da Andradas os mendigos não podem nem sentar na beirada da calçada, que dirá pedir batatas fritas em paz. Eu, uma menina de classe-média, já fui expulsa pelo porteiro quando sentei em um murinho do prédio "Morada da Redenção". E como tal já fui expulsa da beirada do canteiro do Shpping Praia de Bellas também. Em Buenos Aires, todos sentam na calçada que for, mendigos ou não, seja para entornar cervejas ou descansar os ossos com carne. O máximo que nos aconteceu, bebendo Quilmes litrão em uma escadaria de prédio (muito mais chique que o "Morada da Redenção"), em San Telmo, foi uma senhora dizer: "vocês vão ficar mais confortáveis sentando um pouco mais pra lá, pois aqui é o lado onde abrem a porta". A elegância é preservada graças à consciência política/social, que é muito maior por parte de todos; talvez por muita gente ter empobrecido da noite para o dia (não é como aqui, que apesar de a pobreza aumentar, somos pobres desde sempre) e isso ter gerado uma comoção maior; choque traz solidariedade, afinal. Enfim, dá para perceber uma preocupação e mesmo um afeto dos mais ricos com os mais pobres, uma atmosfera "estamos todos no mesmo barco".


I am you and what I see is me.


Ah, e não existem "latinhas" na Argentina (pelo menos eu não vi nenhuma), as menores coca-colas são vendidas em garrafinhas de vidro de 237 ml.

[O vidro está nos recipientes e nos refletores; frágil e quebradiço como todos os deformadores dos objetos reais e sólidos. Ou líquidos. O vidro também derrama, escorre, derrete, colore. A proteção é ilusória, mas deliciosamente transparente.]


Montag, Januar 29, 2007

Ian McEwan is GOD

Logo ali embaixo tem um post (apaixonado) sobre David Foster Wallace, um escritor contemporâneo cheio de experimentos na linguagem, no qual o maior mérito reside em fazer os olhos travarem, eu diria. É algo como um mouse sujo, como eu disse antes; irritante, mas de certa forma sedutor, pois a todo custo precisamos fazê-lo funcionar. Depois de ler Ian McEwan percebo que eu realmente tinha essa necessidade de que David Foster Wallace funcionasse comigo e que de alguma forma eu fiz com que ele funcionasse; odiei tanto que gostei. Mas o Ian McEwan, ele não é um mouse travado, ele é uma janela de casa mal assombrada aberta para o gramado mais verde do vizinho. Veja bem, falo de sensações, pois são elas as únicas lembranças reais que possuo.
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A sensação que tive ao ler Ian McEwan foi _________________________
travo. Mas não com um mouse sujo, travo com a vontade de que o tempo congele legitimando um momento único e duradouro na memória, essa entidade enigmática que guarda com mais vigor aquelas lembranças que em tempo "real" duraram 5 minutos mas, em tempo EXPERIMENTADO, duraram duas, três, quatro longas horas; como um assalto, um acidente, um beijo. Pois quando o tempo corre rápido, tão rápido ou na mesma velocidade das horas, não perdura na memória. Por exemplo, já estou nesse computador há 6 horas e não vi o tempo passar, no entanto, amanhã, esses preciosos momentos virtuais não estarão na minha memória; são seis longas horas e nenhum instante de tempo EXPERIMENTADO.
O que eu quero dizer é, quando não há uma emoção real, só há tempo "real". Quando há uma EXPERIÊNCIA, há tempo experimentado e, logo, há MEMÓRIA.
A rapidez do tempo é uma ilusão de prazer/o agradável
nunca é significativo/ não ver o tempo passar significa não experimentar.
[Sobre aquela cratera que partiu o chão de São Paulo, por exemplo, houve toda uma discussão se havia "tempo" ou não para uma medida de emergência desde o momento que o chão começou a tremer até a tragédia se consumar. Segundo a empresa responsável pela obra, o tempo transcorrido entre a tremedeira e a cratera foi de mais ou menos 2 minutos. E então, a televisão perguntou para os obreiros (que EXPERIMENTARAM a situação) quanto tempo tinha levado entre a mesma tremedeira e a mesma cratera, ao que eles responderam "mais ou menos 10 minutos". E então a televisão deu a entender algo do tipo "veja só como a empresa está mentindo". Pra mim, parece um tanto óbvio que eles já sabiam a resposta dos operários. Afinal, a televisão é mestre em tempo real x EXPERIMENTEM O NOSSO TEMPO.]
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Foi basicamente isso que absorvi de "A criança no tempo", um livro que vai transformando um enredo clichê em uma história dura sobre o trancorrer dos minutos, horas, dias, meses, anos e vice-versa, através de um personagem que dá vontade de telefonar de madrugada pra chorar junto; notável semelhança com Salinger em seus infanto-juvenis e com Somerset Maugham em "O fio da navalha". Em comum, autores misturando o realismo com os sentimentos de sua época em histórias lineares contadas através de mais e mais sentimento. Sangue; BUSCA. É tudo que consigo dizer no momento. Ah, e o livro ainda tem um quê de física quântica (tudo bem, em algum modismo tinha que cair, caso contrário não seria "tão" retrato da nossa época).
Ah, outra coisa:
As alucinações na verdade não são alucinações; as alucinações são meros experimentos de algo que já aconteceu em um tempo real passado e estão voltando para nos avisar que participamos daquele passado (que nos fazem acreditar tão distante), de forma definitiva e real; visível. As alucinações são os olhos do coração.

Dienstag, Januar 23, 2007

always shit!

Vontade de comer queijo mas, pense bem, adultos não precisam de leite, o leite é uma caloria vazia, gordurosa, o leite dá colesterol, e só. Vontade de tirar fotos mas, pense bem, suas fotografias não tem função social, hoje em dia a única coisa que importa é a criatividade, entendeu bem? CRI- ATI-VIDADE, mas não, eu não vou entrar nessa, eu realmente quero ter algo a dizer ao invés de fotografar pés em ângulos nunca antes explorados. Quem sabe, meter medo em algum adolescente desavisado emprestando um DVD com o seriado Twin Peaks. Quem sabe distribuir muitas cópias deles pelos corredores das universidades burocráticas com seus alunos burros (nossa, essa frase ficou tão clichê, vazia e sem função social, e a arte está tão morta e o artista bom é o artista bem quietinho, who knows.).
LUTO
Eu declaro luto rosa-pink para os que acham que eu escrevo coisa de mulherzinha, eu declaro luto laranja para os que com 40 anos apodrecem em suas casas dormindo na sala com a televisão ligada no canal 12 ou os que mofam fedendo a coca-cola com seus detestáveis 20 anos e canal 14, e os leitores de David Foster Wallace rejeitando a porra da televisão pra assistir algum filme gravado toscamente por um amigo de 50 que ainda anda com adolescentes. Eu declaro luto pela blusa de flores suada depois de trabalho e amigos e línguas e cervejas que não descem mais. E essa vontade de comer queijo, essa vontade de comer queijo que me sobe pelo esôfago ardendo e implorando um copo de suco de goiaba, del valle, por favor. Enfurnada nesse trabalho intrapsíquico de elaboração da perda da emoção que sentia ao ouvir Renato Russo dizendo que sente mais falta daquilo que nunca teve eu penso que um queijo, afinal, não resolveria meus problemas e, tampouco, minha fome.
O esôfago, não sei se é o esôfago, mas algo entre a garganta e o estômago reclama frutas, vegetais, ar puro, nicotina zero. E o coração, não sei se é o coração, mas algo entre a cabeça e os pés reclama aventuras, independências, intimidades. O íntimo é o que há de mais profundo em alguma coisa ou em nós mesmos; pode ser também, ou ao mesmo tempo, algo tremendamente secreto. Logo, o que há de mais profundo em nós é um mistério que, "se" e "quando" revelado, é a entrega total.
[SECRETA é a oração que o padre diz em voz baixa, antes de começar a missa, ou pode ser também um produto de secreção elaborado pelas glândulas.]
O importante é que, ainda que a intimidade seja a troca de pequenos segredos, o segredo sempre será aquele que jamais pode ser revelado, logo, a inimidade é uma ilusão; uma ilusão no sentido PALPÁVEL mas, no entanto, tão bonita de se ver, sentir e ouvir. Como diria Fernando Pessoa, o olfato é que vale. Ou seria o tato?
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João olhou Maria pela janela do banheiro enquanto ela defecava, Maria vislumbrou o rosto sorridente do namorado no canto do espelho e ficou constrangida; não por João estar assistindo seu ato tão íntimo de cagar e sim por não saber como se comportar na frente do ser amado enquanto caga, como diria o Kid Abelha, ninguém ensinou na escola. Então Maria escondeu os seios nos braços que agarravam as pernas em posição de cócoras e disse algo aleatório com intenção de demonstrar leve e natural conforto ao mesmo tempo que sentia que João jamais a amaria da mesma forma. João sorri e desaparece do canto do espelho, Maria pressente; levanta da privada debatendo mãos no papel higiênico enquanto o barulho dos passos de João ficam cada vez mais perto, ele está dando a volta no corredor.
O corredor é um momento de transição; o elevador, um símbolo do ato sexual.
O ruído da descarga. João abre a porta do banheiro. Então temos ruído da descarga. Então temos Maria enrolando-se na toalha e o olhar dele, como que sabendo que aquele momento não era o de convidá-la para uma trilha ecológica, ou para um almoço no Shopping, e não era hora, mesmo para um olhar do tipo "calma, isso não foi nada demais, já vi outras cagando, eu gosto"; Maria não sabia o que fazer, não sabia o que dizer , afinal, nada tinha mesmo acontecido, e foi isso que ela pensou enquanto ele sorria aquele mesmo sorriso do canto do espelho tentando agora decifrar ainda mais de perto no fundo da pupila misteriosa de sua amada seus mais secretos e fedidos contrangimentos. A reação. O olhar da reação, as mãos da reação, o sorriso tímido ou vibrante da reação. É só o que queremos, always. Shit.

Sonntag, Januar 14, 2007

Savana

"I've been looking so long at these pictures of you that I almost believe that they're real. I've been living so long with my pictures of you that I almost believe that the pictures are all I can feel".(The Cure - Pictures of You)
Será que eles não percebem o quanto Savana sufoca, mas sufoca mesmo, a ponto de ficar mais de 8 horas sentada no mesmo lugar sem se mover, será que eles não sabem que Savana teve suas primeiras dores musculares, dores de tensão, aos 5 anos? Não, eles não percebem, só percebem a própria dor, o próprio sufoco, aliás, não sei se poderíamos chamar de sufoco, pois o sufoco é contido, uma repressão involuntária dos músculos ou uma obediência, uma submissão em prol do bem-estar alheio. O verdadeiro sufoco não grita nem geme, por respeito. Sim, o sufoco voluntário. Eles gemem. Desde que Savana nasceu e escutou pela primeira vez, eles gemem. Miseráveis incapazes de sufocar a própria dor, querem que doa nos outros também, não limitam seus gemidos nem perante as crianças, fazem questão de que elas saibam o quanto eles sofrem, por elas, é claro, pois a dor deles hoje é consequência dos sacríficios pelo leite e o conforto de ontem. Pobre Savana, lá sentada, sofrendo, enquanto eles limpam o chão de seu quarto e lavam suas calcinhas, sempre gemendo.
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Existe um filme de Ingmar Bergman chamado "Sonata de Outono", sobre uma mãe egoísta porém com uma carreira artística brilhante. Ela abandona a família por causa da carreira e depois de velha tem isso tudo e mais um pouco jogado na cara pela filha que, obviamente, joga todas as suas frustrações no afeto negado pela mãe durante os seus primeiros e essenciais anos de vida. Liv Ullman faz o papel da mulher infeliz que acredita que sua infância solitária é a culpada de todos os seus problemas adultos.
[Crianças. Crianças de domingo, já dizia o próprio Bergman.]
Crianças nascidas em um dia de domingo são aquelas que carregam a sensibilidade artística na alma, segundo uma tradição sueca. Vai ver a personagem da Liv Ullman não nasceu em um dia de domingo, e esse é o único motivo pelo qual ela não executa um Chopin tão divinamente quanto a mãe, uma renomada pianista. Almodóvar fez uma bela sátira deste filme em "De salto alto". Muito mais bem humorada, a versão espanhola traz uma personagem-filha que se vinga da falta de atenção da mãe casando com o padrasto. E depois o trai com um travesti.
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Então Savana ficou olhando as fotos tão coloridas e cheias de vida e grama e cafeterias diversas com paredes vermelhas, verdes, laranjas. Fotos com mesas de toalha xadrez cobertas por sucos de frutas; amarelo-laranja, roxo-uva, verde-limão. E por algumas oito horas sentada na frente do computador conseguiu esquecer parcialmente o quanto eles gemem. E ficou pensando no quanto vem procurando, de certa forma, pessoas que também gemem ao invés dessas tão coloridas que pulam e fazem caretas e não usam drogas. E então Savana percebeu que os dias azuis talvez fizessem mais sentido se ela fosse a piqueniques ou deitasse na grama, e que talvez os dias cinzas também fizessem mais sentido se ela lesse um livro no vento ou tomasse café em cafeteiras coloridas. E aí ela pensou que talvez esteja lendo muito Caio Fernando Abreu, e que afinal de contas isso é um computador e não a vida de alguém. E que afinal o que ela quer dizer com fazer sentido é fazer feliz, e ela sempre achou que felicidade era pra gente burra.
E continuou lá sentada no seu computador olhando fotos alheias, num daqueles dias azul turquesa com pequenos tufos de algodão no céu, um verdadeiro cotonete gigante desentupidor de todas as amarguras dos pequenos homens lá embaixo, em seus computadores, verdadeiros desertos doces. "Ainda prefiro que eles continuem gemendo", pensou, "do que matá-los com os meus sentidos todos, tão felizes, afinal".

Dienstag, Januar 09, 2007

Inferno Astral

Deviam ser umas 4 ou 5 da manhã, estávamos voltando de uma festa e procurando um lugar pra comer e comprar cigarros, aí entramos em um desses bares 24h da Cidade Baixa com cara de xis-ruim-que-demora-duas-horas, lotado de mesas de plástico com batatas-fritas e amigos dividindo litrão de coca-cola. Entramos, batalhamos nossa mesa e eu sentei minha bunda cansada e fiquei olhando pra rua. Na calçada bem em frente tinha um velho de calças curtas e sapatinho bem engraxado carregando uma dessas bolsas-pastas pretas de material nem duro nem mole pendurada no ombro, acho que ele usava também uma dessas camisas sociais baratas, mas muito bem colocada pra dentro das calças em estilo centro-peito. Eu fiquei olhando pra ele; gosto de velhinhos e achei bonitinho o jeito como ele conversava com o frentista coçando o queixo, como se estivesse refletindo sobre as palavras profundas daquele homem de cabelo desgrenhado abanando para os carros com um paninho de flanela.
Ficaram um tempão conversando. A gente ficou um tempão olhando o cardápio e depois pediu 3 baurus, um cigarro e uma ceva. Os dois continuaram ali, até o fim dos nosso baurus, cevas, coca-colas e acredito que até o fim de todos os nossos cigarros também. Aí uma hora eu vi o velhinho tirando alguma coisa da bolsa; era um desses potes de marmita do 1,99 com uma tampa laranja. Ele estendeu o pote para o frentista e o homem tirou dali um bolinho de carne, tentando disfarçar uma fome absurda que dava pra perceber só quando a comida chegava na altura da boca; como numa espécie de demonstração de respeito ele demorava o máximo possível aquele caminho do bolinho até a boca dirigindo seus olhos famintos para os olhos do velho que agora falava; disfarce que caía por terra depois que os bolinhos entravam de uma vez só na boca e mão descia angustiada até o pote de novo. A subida é lenta e a descida rápida, como em todas as escaladas da vida.
Quando os bolinhos acabaram o velhinho fechou o pote com a tampa laranja (fixei muito a cor do pote pois acho laranja uma cor angustiante e ao mesmo tempo alegre, dizem que é por isso que o Mc Donald's usa essa cor, para as pessoas comerem, ficarem alegres e irem embora) e guardou na pasta, apertou a mão do frentista (e eu pensei: bom, agora ele vai entrar no carro e ir embora) e foi indo em direção ao ponto de ônibus, mancando como um bom velhinho. Foi aí que alguém da nossa mesa entupida de cinzeiros entupidos e pratos sujos de maionese e ketchup perguntou: "o que tu tanto olha?" e eu respondi "o velhinho ali", e então outra pessoa da mesa olhou pra fora, largou o seu delicioso bauru no prato e disse "é, realmente não é uma boa hora para velhinhos estarem na rua".
Quando a gente saiu do restaurante, uns 20 minutos depois, ele ainda estava na parada de ônibus, e já deviam ser umas 6 da manhã nessas alturas, quando eu saí correndo feito uma retardada até lá, antes que ele entrasse no seu meio de transporte e eu nunca mais pudesse dizer "que liindo isso que o senhor fez, o senhor é demais, etc, etc". Muitas coisas passaram na minha cabeça enquanto corria bêbada de amor até aquele ponto de ônibus; admiração, vontade, tristeza, vergonha. Ele me olhava correndo em sua direção, com certeza já tinha percebido que eu o observava o tempo todo, e ele me olhava com um desses olhares calmos, complacentes, resignados porém satisfeitos; um desses olhares de vovô que vai chegar em casa, tirar os sapatinhos engraxados e colocar uma chinelinha de pano, depois tirar a chinelinha de pano e dar um beijo de boa noite na vovó enquanto deita na cama de madeira velha comida pelos cupins. Ou talvez fosse o olhar de um homem solitário aprisionado em um corpo cansado e de pêlos brancos, indo para sua casinha vazia em Gravataí, na qual vai chegar pelas 7 da manhã e ainda dar comida ao cachorro e encher as tigelas do pátio com farelos de pão para os pássaros. Migalhas, a vida é feita de migalhas.
Eu bati no ombro dele e disse "Desculpa, eu tava ali olhando o senhor e achei tão bonito e o senhor vem todo o dia aqui dar comida aos frentistas?" e ele riu aquele sorriso de idosos com rugas em volta da boca e poucos dentes e disse que trabalhava em um estacionamento ali perto, "o senhor trabalha toda noite até essa hora?", eu perguntei, e ele disse "há 45 anos", e eu disse "que lindo", como uma boa burguesinha sem noção voltando de uma festa no Jekyll. Ele continuou sorrindo aquele meio sorriso tão bonito e claro, de uma clareza dessas que deixam a gente cego e pequeno; e aí ele contou que nunca comia todos os bolinhos que ele ganhava lá no estacionamento e por isso guardava em um potinho e quando saía de lá ia levar o potinhos aos frentistas que ficam ali às vezes o dia todo sem comer; achei bizarro (um estacionamento que que dá bolinhos de carne aos funcionários) e depois pensei que na verdade talvez o que unisse ele aos frentistas fosse justamente isso de ambos cuidarem de veículos alheios, porém o velhinho era um frentista de nível mais elevado, quase "rico". E aí o ônibus dele chegou e eu o abracei e disse "feliz natal pro senhor, tudo de bom, mesmo" (uma coisa tão automática de se dizer mas que veio tão sem esforço naquele dia).
E comecei a lembrar disso hoje, em plena avenida Salgado Filho, enquanto observava um outro velhinho vendendo aqueles sucos de frutas cítricas que dá pra sentir o gosto doce de puro açúcar só de olhar, embaixo de um céu azul de 40 graus e que com certeza também se acha muito rico pois trabalha em uma avenida onde as pessoas dormem enroladas em papelão, e isso é deveras amargo, e me lembrei de um documentário que vi na TV sobre uma criança agonizando durante 7 horas em uma avenida central de São Paulo ou Rio enquanto os pedestres que provavelmente são assaltados toda semana mal olhavam de canto. E amanhã é meu aniversário, e não tenho vontade de comemorar, e talvez isso tudo que pensei não passe de uma busca de motivos nobres para a minha tristeza sem função social.

Donnerstag, Januar 04, 2007

chopps não matam animaizinhos

(folha 1 do diário de uma nova vegetariana)

Os dois litros de chopp me pesam na cabeça mas como é incrível que nunca pesam no coração, esse sempre voa levinho, tão levinho que sai se batendo por todos os cantos duro do peito,
esses cantos-esconderijos de mágoas escondidinhas fedidas que não saem para fora pelo simples motivo de não ser todo dia aquele o qual tenho grana para me atolar no líquido amarelo-laranja cor do mijo fedendo tanto quanto os rancores escamoteados que hoje saíram pra fora. Quando se tem dinheiro o chopp entra e a mágoa sai depois de tanto ser espancada por esse bate-bate-coração ventinho dizendo eu te considero, eu te amo, bate-bate-levinho deslizando no peito até encontrar não sabe como algo como aquele pingüim que Tyler Durden encontra sempre em suas meditações de grupos de auto-ajuda no filme Clube da Luta. É assim: ele está levinho, levinho meditando e quando o mestre do grupo diz "pense no seu animal interior" ele vê um pingüim e acorda da meditação na mesma hora. O que eu quero dizer é, para encontrar um monstro interior ele não precisa ser necessariamente um monstro (pode ser um pingüim) mas ele precisa ser necessariamente encontrado num momento de profundo relaxamento e paz de espírito (como numa rodada de chopps); é preciso alcançar a leveza mais ventinho de um coraçãozinho saltitante para que ele bruscamente bata direto no poste das mágoas. É só isso, tudo uma questão de confiança infundada e vulnerabilidade.

[Você sabia que o chopp é a cerveja que não passa pela pasteurização? Eu li hoje em um daqueles redondinhos que os garçons vão amontoando embaixo do copo pra gente não perder a conta; chopp é caro, e sempre vem com esses redondinhos com marcas de cerveja ao fundo, estampado por cima com essas letrinhas que na mesa do bar fazem a gente pensar "eu já devia saber, apenas não lembrava".]

Tudo apaixona mais, tudo irrita mais; é uma cabeça à flor da pele, eu diria; coração, não. Coração não tem paranóia nem mágoa, coração só guarda uns cantinhos do peito pra ser casinha das mágoas da cabeça. O coração é um pobrezinho sem força própria quando as neuroses gritam de dentro de uma cabeça pesando 2 litros de chopp. E mais alguns cigarros. O câncer é um filho que foi embalado no mesmo colo que cresce enquanto os bares somam-se; apenas uma criança. Eu me sinto muitas vezes assim, com essa sensação de não-queria-ter-brigado-quero-voltar-no-tempo-não-posso-acreditar-que-em-dez-minutos-tudo-ficou-tão-escuro. E chopp escuro é coisa de veado.


(Eu não quero dizer que o animal interior de cada um é um monstro, mas o Bambi talvez queira.)

Mittwoch, Dezember 27, 2006

miojo de morango

O sentimento que tenho em relação a David Foster Wallace se compararia a um miojo de morango. É tão nojento e irritante (apenas a idéia da existência de um miojo de morango) que sinto cócegas. Cócegas são semi-orgasmos, mas incomodam. Incomodam e fazem rir; mas agora não consigo rir. O cheiro de carlton e cerveja é como um miojo de morango, a mistura do sabor e do nojo, e o nojo é um luto, um trabalho intrapsíquico de elaboração da perda de um objeto amado externo. A perda da razão, a vitória dos DESEJOS. Percorrem meu corpo, sujam minha roupa, pedem um picadinho no bar maroto do centro pelas duas da manhã. Desejos fedem; desejos não se realizam, quando se realizam, são felicidade. Felicidade é ruim, felicidade é contentamento, abnegação, busca encerrada. DESEJOS comandam. David Foster Wallace é puro desejo; desejo de chocar, de incomodar, desejo de não se realizar e continuar sempre travando como um mouse sujo de cabelos e restos de unhas. David Foster Wallace é um grito no ar, perdido, sem fim, sem comunicação, puro LIBERTAR. O LIBERTAR não tem fim, a liberdade não pode nunca alacançar um objetivo, a liberdade é o desejo de estar solto de todas as amarras e as amarras são justamente a necessidade de LIGAÇÃO; a ligação COMPÕE, estabelece, dá vida a novos compostos, químicos, gramaticais; seja o que for, sempre faltam. Faltar, perder, emburrar; regras de uma vida sem escolha. É preciso desembaraço mas, normalmente, a liberdade é como uma licença.

[Ter liberdade é ter permissão ou uma maneira de agir com audácia.]


A FESTA

No dia da festa, pela primeira vez em cinco anos, ele dormiu na posição de um homem infiel. Peito pra cima, braços cruzados em cima do peito; significa que ele até quer ser fiel, mas não consegue. Peito pra cima, braços cruzados, mãos segurando a cabeça, significa que ele é um infiel assumido; um machão orgulhoso de seus culhões fedidos a baixos critérios. Barriga pra baixo, corpo voltado ao colchão; ele quer sexo.


Três, quatro, cinco carreiras; correrias, adaptadores de MP3, danças caretas e frenéticas; só nós dois no salão. Uma criança dormia. A outra, de olheiras fundas, jogava o video-game do papai-noel. O pai das crianças, anfitrião da festa, constrangido, não sabia de adaptadores de MP3, não sabia das crianças, mas sabia das sete, oito, nove, dez, onze carreiras. Constrangido, no banheiro. Constrangido, e vermelho. Constrangido, e malvado. Egoísta, pérfido, só queria compartilhar. Treze, quatorze, quinze carreiras. Ele, o meu amor, no dia da festa, constrangido, mas de constrangimentos bonitos, completos e partidos. Partidos pela necessidade constrangida de compartilhar, de não deixar o pai das crianças que ele, meu amor, amava, ali, sozinho, pérfido, dezoito, dezenove carreiras. Naquele dia da festa ele compartilhou de toda imundíce que seu constrangimento até então o havia impedido de compactuar mas, naquele dia da festa, vendo o pai, assim, sozinho, fodendo com todos, teve que foder também. E dormiu, segundo algum programa de televisão que as donas de casa assistem pela manhã depois que as crianças acordam e enquanto esquentam o leite no microondas, como um homem infiel. E a festa acabou na garagem disfarçada de quarto, com goteiras ao lado da cama e meu amor vomitando o peso de um caráter morto. E o desenho da criança, que dormia ou jogava (ninguém mais sabia) ficou ali, escorregou do imã da geladeira que ficava na garagem gelando as últimas cervejas enquanto eu fumava e pensava nele (o desenho) parado na poça da goteira, submerso. Olhei bem pra ele, uma festa de lápis de cêra que compunha um castelo, afogado. E ele, meu amor, meu anjo azul, entregue ao sono dos infiéis.

Compartilhar imundícies é abdicar da liberdade dos princípios acorrentados.

Sonntag, Dezember 17, 2006

Die Unabhängigkeit

[dureza: grau de resitência de um material à penetração de outro material]
Unabhängigkeit significa independência; a independência é a ausência de ligação com movimentos específicos e ideais compartilhados em geral. Pode ser também a liberdade condicionada por bens pecuniários; a pecúnia é o conjunto de numerário sob qualquer forma existente de valor utilizada para a troca; o valor é o preço atribuído a alguma coisa ou uma forte estima dedicada a alguém ou alguma idéia. Vasos de cerâmica não tem valor, mas só o pão-duro sobe na vida. O pão é um alimento que quanto mais duro mais esfarela-se. Os degraus são sempre escalados por migalhas; a dureza é uma pérfida ilusão.

Samstag, Dezember 16, 2006

Hallo, wie geht's?

Me sinto
totalmente
embriagada
e não poderia deixar passar essa vontade de escrever sem compromisso e assuntos determinados, não que em posts sóbrios eu os tenha, mas sempre os embriagados fazem mais sucesso. Acabo de ler meu post sobre "videodrome" (welcome to the new flesh) e penso que ele soa um tanto sóbrio-mangolão. Na verdade, a maioria das coisas que escrevo soam um tanto mangolão, por isso não sou digna de pertencer a algo do tipo o Insanus. E isso me lembra o Gabriel Pillar que morreu num acidente de carro embriagado e o post sóbrio que escrevi sobre isso e soou tão ridículo, por que eu falava de ausências que poderiam ser tanto falhas quanto saudades e de que fiz meu irmão de 9 anos jurar que nunca dirigiria bêbado (dizem que não funciona), que acabei apagando. Depois a proliferação de homenagens internéticas me fez sentir um pouco de enjôo. Sei que ele era um cara bacana, mas não posso evitar um certo asco desse romantismo compartilhado em rede mundial. Provavelmente os integrantes do Insanus valorizam essa relação mais do que eu, e mais do que isso, a utilizam muito bem no quesito "Blog"; sem parecer babação de ovo, os integrantes do grupo comentam uns aos outros em tom irônico sem perder a elegância amorosa que uma bela amizade exige. Mas não era disso que eu queria falar. Não sei do que eu queria falar.

Eu nunca sei do que eu queria falar, por isso fico dando voltas e voltas e me surpreendo quando alguém me leva a sério. Acho que eu não devia ter um blog. Uma amiga disse que só visita blogs em busca de evidências da vida pessoal do blogueiro; EIS AQUI UMA BÊBADA REVELANDO SEUS ASCOS:
1.Pensar que meus avós vão morrer em breve.
2.Pensar em adultério.
3.Pensar que estou escrevendo um diário em rede mundial.
4.Como a maioria da mulheres, pensar nos meu defeitos capilares e corporais.
5.Me sentir burra e vazia.
Ok, estou por dentro do aumento que os políticos revindicaram para si mesmos, estou por dentro da declaração de Lula sobre os esquerdistas jovens e velhos e o modo escroto como tentou se retratar elogiando o velhinho Niemeyer que tem 99 anos e continua comunista. Eu leio Correio do Povo, e daí? Ainda não tenho uma opinião formada a respeito do empobrecimento da classe média por culpa do Bolsa Família mas acho palha que um cara que a receba e não cumpra a cartilha tenha apenas 30 dias de suspensão. Também não gosto de notícias a respeito de obras públicas e nunca entendo os conflitos na Faixa de Gaza mas,ao expressar esse meu sentimento de falta de informação meu companheiro de cevas e churrasquinhos sentenciou:"São basicamente disputas territoriais". Lá e aqui.

Durmam bem. Talvez quando vocês estiverem aqui não seja noite, mas o que importa é o momento, e talvez esse seja meu pior defeito.

Pais e Filhos, 1970.

Welcome to the new flesh!

[VIDEODROME 1.filme de Cronemberg que mesclou com louvor as mentes assassinas de "Scanners" e o furor sexual-mortal de "Vício Maldito" e ainda conta com a participação de Debbie Harry, vocalista do Blondie. 2.programa de TV supostamente cancerígeno.]
"A palavra do vídeo transformou-se em um pedaço de carne"; a televisão injeta tumores que causam HELLucinations do tipo guardar pistolas na barriga e sentir palpitações ofegantes da mulher desejada em caixas de som, aparelhos de ar-condicionado e fitas VHS. A realidade da imagem é mais forte do que o caos do corpo, humanos são executados como reprodutores de imagem; pause, play, stop.
Uma pausa é uma breve interrupção e a interrupção é um breve cessar da velha carne; fedida, suada e mole contra a nova flesh tenra como um robótico caçador de promoções no mercado.
the new flesh is tough as nails. red nails versus black nails? Black or White? Back to the Back; from your Head.
Michael Jackson é a nova carne.
A nova carne é uma ilusão sem cor, sem nariz e sem valores familiares, com muita maquiagem. A nova carne não sente o CHEIRO; indício de violação e fomes, na linguagem figurada, um vestígio ou uma aparência.
A NOVA CARNE BEBE CEVA
A CEVA é um processo de caça ou pesca que consiste em lançar, periodicamente, no mesmo lugar, os alimentos preferidos das presas, para depois surpreendê-las nesse mesmo local.
[ainda sobre o céu]
os anjos vêem a nova carne como crianças.
"Als das Kind Kind war, wußte es nicht, daß es Kind war, alles war ihm beseelt, und alle Seelen waren eins."
[Quando a criança era criança, não sabia que era criança, tudo a inspirava, e todas as almas eram uma.] - Wim Wenders, 1987, em "Asas do Desejo".
2007. Passados "Fahrenheit 451", "Asas do Desejo" e "Videodrome", é possível estabelecer uma conexão entre uma sociedade em que os livros são queimados para que sejam evitadas personalidades introvertidas e proclamada a comunicação fútil entre as ovelhas do rebanho de robóticos caçadores de mulheres no trem, e outra sociedade em que o vídeo transforma a transmissão de sexo, violência e tortura em ondas cancerígenas para mentes amorais; a morte do livro como instrumento de silêncio e depressão, a vida paplpitante do vídeo que institui os monólogos de um morto gravados em fitas VHS como a nova vida, ou a nova carne: "Meu pai sabe mais sobre isso do que eu, escute o que ele tem a dizer", diz uma personagem de "Videodrome" estendendo uma pilha de 4 fitas VHS à outra.
[Escapou a Cronemberg que as fitas VHS mofam mas não a previsão precoce do YouTube e dos scraps para as carnes mortas na Orkut.]
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[ainda sobre o céu]
Sobrevoando a sociedade alemã de uma Berlim na qual se falam também o inglês e o francês, anjos revindicam o prazer do "agora" em substituição ao conforto do "eterno" (dizer "ah, não" ao invés de "sim" ou "amém"); cigarros e cafés podem matar mas tornam a vida colorida quando se dá asas à cobiça. O desejo consiste em ambicionar o que não se tem ou goza. Os humanos aspiram a eternidade do vestígio da velha carne enquanto os anjos aspiram descer e feder e conhecer o que é branco, vermelho ou preto.
[kennenlernen]
KENNENLERNEN, em alemão, significa conhecer pela "primeira vez" alguém (ou alguma coisa?), ou seja, ser apresentado. KENNEN é o verbo "saber, poder, conhecer" (tipo o "can" do inglês) e LERNEN (to learn) significa "aprender". Portanto, quando alguém diz "es freut mich, Sie kennenzulernen" (prazer em conhecê-lo) está dizendo que é um prazer estar aprendendo a conhecer aquela pessoa.
Conhecer é ser capaz de formar uma idéia sobre o que se vive ou observa; experimentar, provar, sofrer. Em sentido bíblico, ter relações sexuais.

Montag, Dezember 11, 2006

Der Himmel über Berlin

Penso no céu como um lugar onde são necessários "contatos" para que a entrada seja permitida. Entrada ou passagem?
"O céu sobre Berlim" ou "Asas do Desejo" foi onde tudo começou; o início é o fim de um fio condutor de pensamentos emaranhados que tiveram início no cheiro da grama que vinha da minha boca. O jardim de concreto (versus) a cama; eis a batalha dos aflitos.
É imposível não ser pessismista quando se pensa que vai chover e chove, ou quando se pensa que vai chorar e chora. Estava eu pensando entre uma parede e outra mais duas de cada lado ou, pensando horizontalmente, entre a cama e o jardim de concreto, afinal, toda luta do ser humano é entre a preguiça e as grandes cidades, ou seja, entre o instinto animal voltado ao prazer e a evolução robótica urbana.
Quando tinha 15 anos me perguntaram se eu nunca havia atentado ao fato de que todas as pessoas que eu admirava nos filmes estavam mortas; na ocasião, o filme era "Casablanca" e, de fato, eu nunca havia pensado sobre o assunto.
[Isso me lembrou uma cena de "Asas do Desejo", ou melhor, um parágrafo da legenda: "O tempo cura... Mas... E se for o TEMPO a doença?"]
Hoje é uma daquelas noites em que se sabe que vai chover e os mosquitos te devoram enquanto outros te distraem com barulinhos no ouvido pois os mosquitos, assim como os homens, trabalham em equipe. Enquanto uma parte do grupo te aniquila, a outra canta para te amortecer.
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Deixe sempre um Scrap para os mortos.
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Quintana disse que nunca escreveu nada que não fosse uma confissão; Quintana está morto como Borges, que está morto como atores de "Casablanca". Os filmes são um acessório do meu investimento pessoal e não o contrário. Lamento, mas não usarei o Google para expressar meus sentimentos.
Os grandes artistas estão mortos e os novos acreditam que a teoria e a "História" podem ajudar. Mania acadêmica vomita spaghetti mastigado com cenoura.
[Artista que é bom não tem blog]

Freitag, Dezember 01, 2006

Ghost World

"Ghost World" é como "What the bleep do we know?", só percebemos seu real valor após o decorrer de uns 5 dias, necessários para relevar os clichês decorrentes da proliferação de filmes com apelações da ordem "me assistam, por favor! sou cult e tenho utilidade mundial!". Sim! Ghost World é pior que Nouvelle Vague e tem a grande utilidade de nos mostrar como nossa geração é indecisa, cara-dura e sem-vergonha. Começando pela seleção de elenco que não poupou a escolha de alguém tão semelhante à Christina Rich (musa cool) para convencer o público sem causa. E o que é uma causa? Uma causa é a origem de toda e qualquer situação, mas também pode ser a idéia defendida por um grupo de pessoas. A causa defendida pelo filme é: tenha orgulho de ser um fracasso, pois ainda assim você pode usar meias arrastão! Sempre haverá um ônibus esperando por você, ir embora está sempre dentro de cogitação, mas você pode simplesmente se contentar com casinhas de um quarto e tábuas de passar embutidas. A morena de óculos que parece a Christina Rich está para Holden Caufield assim como o Homem de Areia está para Gregor Samsa. No livro está o monstro, no filme, a aparência.
OBSESSÃO PELO TERMO COOL É RECALQUE SUBURBANO!
Mataram hoje mais um, esfaqueado por um invasor na frente dos filhos de 6 e 8 anos. Rolou na escada em luta. Luto? Qual a utilidade? Mesas de jantar com cadeiras? Cadeiras de balanço em extinção. O importante agora é arranjar um bom emprego em tempos de aquecimento global. O caos virá lento e cruel, e você? Eu não quero ser garçonete, além de lidar com gentes ainda caminham de um lado para o outro. Ai, que calor!
Não sei distinguir um tédio de um anúncio de vômito!
Sou Charlie Brown esperando um cartão de dia dos namorados. Não, não sou. Sou Sailormoon, voando e apaixonada. SOU ridícula, romântica, tímida. Sou puro ar, como numa canção da Nely Furtado; sou BREGA! Mas Fernando Pessoa não deixa de ser ÓBVIO, com suas observações a respeito do campo e da cidade ("preciso da cidade para me sentir bem no campo e vice-versa" em palavras bonitas) e sua primorosa opinião sobre como as pesssoas precisam ser sensíveis para se comoverem com sutilidades como um dia cinza.