Freitag, April 13, 2007

all the reasons are gay

[os adolescentes gritando dentro do ônibus lembram os espinhos cravados como que por mãos de pianista, um dia, em sua pele hoje enrugada pelos feitos nada ilustres de 3 ou 5 anos atrás. uma, duas, três noites em silêncio são suficientes para que se cobice os brilhos amarelos e azuis de uma noite estragada e má]
No peito direito guardo minha salvação de sonhos verdes fragmentados em doses alva-doces homeopáticas; mas agora ela está inteira ali, fabricada/pronta/misturada em minha pele, perto do coração, longe das unhas encravadas da vida.
[em pé no ônibus e sem fones de ouvido penso em momentos debruçados na janela, em frente ao muro de concreto e longe da bola amarela mística; a lua é um catarro feito de massinhas de modelar]
A diversão é tão aleatória como uma bola de basquete em uma cabine telefônica; o mágico é tão divertido quanto um telefone. Um telefone, tão chato quanto um beijo de tia velha.

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A paz de espírito é um sentimento raro considerando pontos de vista que afirmam

nada. O nada é a tranqüilidade dos poetas despejados no jardim da moda; do sarcasmo em brilho falso. Sóbrios e negros barris invejam a sorte de uma vida sem tampas.

Mittwoch, April 11, 2007

carta ao ursinho perdido

Esta vida é imbecil e não há nada o que se possa fazer a respeito. Nasce-se em uma família doente, morre-se a cada evento social com vaias pedantes. Os decepcionáveis, incríveis; os incríveis, tão fúteis, tão mascarados, tão estilo ao ar livre corrompido. Detestáveis. Imundos em sua limpeza. Descreditados em sua criatividade. Nulos, sem sentimento, valor e constância. A constância não é importante, mas dignifica. Poesia é bom, mau é o indianismo. O indianismo pop, doentio, sedento de afetações criança-frustrada. Dizer que já não se sabe se quer ser entendido é pouco e cansativo; a metalinguagem em geral. Faroestes e sangue; me atraem. Era só isso que eu queria dizer. Foda-se. Os excluídos, por favor se compadeçam da minha exposição imbecil. Imbecil, imbecil, imbecil. O batido que bate. Forte. Não há público, não há amigos, não há banda. Encerrem-se. Morram. Tudo fica claro no escuro caminho de volta. A rua e suas árvores anoitecidas de sangue verde, o chão e suas pedras de lustre velho. Eu não enxergo, eu não enxergo. Socorro! Todos os meninos são tecnológicos. Mas o modernismo tardio não cola, querida. Vamos falar do Deus que não estava lá e do homem que esperou demais. Os dois se foram, corrompidos pela falta de reconhecimento e amor desinteressado; mesmo o amor de devolução me interessa, fodam-se; guardem seus 10 reais e esqueçam que eu existo; mas esqueçam mesmo, por que pra isso não há esforço requerido.



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A garota foi à festa, nenhum menino a notou. Ela chegou em casa e comeu um sanduíche com um copo de Nescau. Desgustante.

Samstag, April 07, 2007

carta ao batom

Querida Sputnika,
Não foi exatamente isso que eu quis dizer, é apenas que um dos meninos se preocupa em excesso com as aparências enquanto o segundo almeja transparências (risos) tenho lido muito isso que chamam poesia. Aprendi que no Brasil ninguém sabe escrever, sempre aquelas narrativas calcadas no desbunde ou na escassez da terra. Mogwai é uma banda que me dói. Bukowski me dói, sabe? O escracho é sedutor mas a timidez é tão misteriosa. Então, o que eu quis dizer sobre os garotos que conheci no último mês aqui na Alemanha é que um deles é por demais extrovertido; extremamente preocupado em agradar aqueles com quem convive, enquanto o outro, se pudesse, apenas se faria presente nos momentos de necessidade (como situações de doença que exigem visitas periódicas aos hospitais de atendimento público sem bancos confortáveis para uma leitura de consciência tranqüila, você me entende, Sputnika?). Puxa, será que você pode entender o quanto é, reconfortante ler uma besteira qualquer ou um cânone pegadão sem nenhuma pretensão além de relaxar a retina das imagens multicoloridas dos outdoors e revistas de fofoca em prateleiras de mercadinhos chinelões? Mas eu apenas queria, dizer, minha amiga, que Mogwai já não me dói mais. Que talvez eu prefira Of Montreal. Que quem sabe o egocentrismo está em todos nóis, mas, eu apenas quis dizer, nas outras cartas, que as pessoas que não tem amigos, como o segundo menino, precisam produzir alguma coisa; um filme, um livro, uma música. Ou se tem amigos ou se é artista. Ou se tem amigos ou se tem público. Não há como escapar da necessidade de elo humano. Assim como não há como escapar daqueles sentimentos de ligação inexplicáveis como uma equação de física no quadro negro de um jardim de infância e intocáveis como um jardim de infância em período de recreio. Amigos de recreio já revelam se serão extrovertidos ou introvertidos, no seu sentido mais chulo.


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De qualquer forma, o garoto extrovertido se apaixonou por uma modelo. O introvertido, continua, talvez, esperando o momento certo. Ou quem sabe ele tenha entrado para a faculdade de Letras de sua cidade e agora possa ser visto nos bancos sujos de concreto com um violão e um ar de intelectual valorizado de modo a compensar os anos de humilhações infantis/escolares sucessivas. Enfim, fodam-se os garotos, eu acho. Nina Hagen já dizia: “menininhas é que são sádicas sexuais”; pequenas e singelas “mães da escória”. Todas. Mães dos que se protegem e dos que se entregam; mães dos ovos de páscoa e dos que assinam “jesus te ama”. Mas o que eu queria te contar, Sputnika, era que, als kinder, eu tive uma visão. Na verdade, duas. Primeiro, um homem de azul no mato; depois, um homem de gravata, na sala escura, apenas da cintura para cima, como um apresentador do Jornal Nacional, só que flutuando. Não sei se você vai conseguir perceber a sutileza, mas, talvez, isso seja uma referência ao choque cultural entre o modo de vida rústico e a urbanização. Agora vou fumar um cigarro. Por favor, reflita. Beijos. Sua Germanjapa.

Sonntag, April 01, 2007

black mirror

- Crazyyyynesssss : Fullllllllllllllllllllll -

[Não me importo que eles me julguem incapaz, incapaz é uma palavra corriqueira e vulgar; só me importo quando escuto ela enrolar os cabelos em movimentos circulares repetidos entre o polegar e o indicativo; quero mais é que façam-se os nós, e que eles nos desfaçam.

o olho
mas
colho
o repolho

estragado no fundo do guarda-legumes vermelho com um trançado de buracos estratégico para permitir a respiração. A mesma respiração que suga o sangue de dentro do pulmão em momentos de música sensual. Eu sei que você me entende. Não me importo que eles me julguem qualquer coisa que seja, tenho certeza que um dia o príncipe do cavalo de branco vem me buscar e seremos felizes para sempre ao estilo Shrek. Embora eu preferisse o cavalo de fogo e a menina dos cabelos longos que já não lembro o nome. Os nomes próprios surgem e escapam como os momentos de relaxamento profundo.]


Lembro quando no colégio de freiras nos levavam para a capela, durante o período destinado aos ensinamentos religiosos; lembro do carpete verde e das almofadas, muitas almofadas. A professora ordenava que nos acomodássemos em uma posição confortável e, de preferência, que permanecêssemos deitados. Normalmente cada um usava uma almofada, mas o Leopoldo Neves sempre conservava ao seu lado uma segunda. Um dia ele escondeu meu estojo de lápis embaixo da sua segunda almofada. Eu fiquei feliz. Eu gostava dele, muitíssimo. Eu fechei os olhos. Então a professora ordenou que imaginássemos um lugar muito bonito, com árvores e arco-íris. Que imaginássemos que usávamos uma vestimenta branca. E tudo era muito fácil de imaginar, com Leopoldo Neves ao meu lado, escondendo meu estojo. Os nomes próprios sempre me pularam na cabeça, eles e suas curvas sinuosas que levam aos caminhos do passado. O passado é um termo recorrente e interessante por sua característica de refirir-se tanto a um acontecimento ocorrido quanto, coloquialmente, a um objeto fora de moda, velho e que não dá mais conta do recado. Eu escrevia recados, nessa época do colégio de freiras, sentada no fundo da sala de aula, sobre minha vista privilegiada para a nuca invadida de cabelos louros sedosos de Leopoldo Neves. Eu escrevia recados PARA o Leopoldo Neves, sobre os seus cabelos louros e sedosos. Mas na infância as pessoas (por costume) se importam com as opiniões das outras pessoas. Fala-se muito sobre a infância ser uma invenção. Filmes, livros, músicas, essas coisas.

[Fazem com que as pessoas deixem de se importar com os julgamentos alheios, fazem com que as pessoas abram o coração para as diversidades e suas faltas de respostas. Fazem com que as pessoas sintam saudades de seus Leopoldos.]

Eu não entregava meus recados ao Leopoldo, ao invés disso, guardava-os em um caderno que havia roubado de cima da mesa da professora certo dia quando ela os deixou, os cadernos, em cima de seu móvel escrituário, para que cada um recolhesse o seu, ao término do período de aula. Leopoldo, como sempre, saiu apressado, correndo pela escada enquanto seus cabelos louros e sedosos sacudiam ao vento de sua velocidade pueril. Eu fui a última a sair e, tal qual foi a minha surpresa, em cima da mesa de minha professora repousava esquecido o caderno de música de Leopoldo Neves. TAL QUAL foi também a minha adrenalida, guardando o caderno a golpes de tempestade dentro da mochila verde com motivos de letrinhas. Após o ônibus de volta e o almoço na casa de meus avós, o retirei de lá a portas fechadas em meu quarto de colcha e cortinas rosas. Depois de o beijar como uma mãe ao seus filho recém-nascido, o posicionei com a delicadeza de uma bailarina embaixo do travesseiro e me deitei sobre o travesseiro com um chocolate Laka em punhos. I’ll do my cying in the rain. Dormi sonhando que sonharia com Leopoldo Neves.

[I'll never let you seeThe way my broken heart is hurting meI've got my pride and I know how to hideAll my sorrow and painI'll do my crying in the rainIf I wait for stormy skiesYou won't know the rain from the tears in my eyesYou'll never know that I still love you soThough the heartaches remainI'll do my crying in the rainRaindrops falling from heavenCould never take away my miseryBut since we're not togetherI'll wait for stormy weatherTo hide these tears I hope you'll never see Someday when my crying's doneI'm gonna wear a smile and walk in the sunI may be a foolBut till then, darling, you'll never see me complainI'll do my craing in the rain ] *



Acordei 20 anos mais velha, depois de um coma causado por um fugaz ataque de epilepsia. Sabe-se de muitos casos nos quais os epiléticos demonstram sintomas de um tipo peculiar da doença, a “epilepsia do sono”. A epilepsia do sono tem origem psicológica como as alergias e ataca apenas quando o paciente encontra-se em profundo repouso. Só sobrevivem à ela sem seqüelas aqueles que estão em permanente estado de alerta, mesmo quando estão supostamente em situação de visível relaxamento. Nesse momento dito este texto ao meu melhor amigo, agora com 10 anos; para que ele conheça a sensação de morte antes que seja tarde e assustador demais. As pessoas podem perder os olhos, que não passam de órgãos internos como corações de galinha. Meu melhor amigo um dia perguntou quantos corações tinham uma galinha, e eu disse que a pergunta era “quantas galinhas cabem em um coração”. As pessoas podem perder os olhos, mas não perdem jamais a imbecilidade sentimental-estética da alma.

* banda A-Ha

Mittwoch, März 28, 2007

Um Bolsinho Acolhedor em Tempos de Hits

Então é tempo de consentir, mas você não é o tipo de pessoa que diria o que eu devo fazer. E então eu preciso inventar um novo tempo que começa após o horário do expediente. Então eu escolho primeiro uma música em língua estrangeira medonha que desafia todos os meus esforços cognitivos e fico divagando sobre os estudos que consideram o posicionamento da habilidade lingüística em partes específicas do cérebro. Pode ser que depois eu troque para algo mais picante dentro do meu peculiar estilo que admira todas as músicas que contenham “love” no refrão. “Então você gosta mesmo de muitas músicas”, ele diria bebendo um gole de cerveja com um olhar de pálpebras semi-cerradas e bochechinha esquerda levemente empurrada para cima com o auxílio dos lábios que se movem em semi-sorriso-para o lado. Sempre pensei que todo o movimento implicasse uma direção, mesmo que indefinida. Aí um dia ele chegou em sua posição totalmente definida e disse que não; o que é equivalente a defender a premissa de que perguntas são mais produtivas que respostas e, por pressuposto, questionar qualquer tipo de conceito - como o de literatura, por exemplo - é mais válido que achar respostas. E sempre que me falam de respostas penso instantaneamente em direções. O meu olhar no dele, por exemplo, no fundo da lua borrada em um céu atrás de grades e cortinas. Ele é um homem que descortina sem despir, e comove sem sorrisos. Toda a comoção, por sinal, é séria demais para os sorrisos e os contentamentos banais. Todo contentamento, por si só, é tão banal quanto consentir sem vontade. Ele é um homem para se sonhar em pé na janela com o rosto e os pensamentos ao vento. Ele é anti-herói em combate e eu o amo em todos os seus cigarros de filtro amarelo que me fazem querer ser um bolsinho de camisa listrada. Eu o amo. E isso, isso não é nada, isso só prova que você sempre esteve errado desde o começo.
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[Trilha sonora: "Age of Consent", New Order; "Float On", Modest Mouse; "Taste of Cindy", Jesus and Mary Chain.]

Dienstag, März 27, 2007

float on

Então ele veio andando com sua barriga, sua careca e sua camisa listrada, e foi como se você tivesse de novo 5 anos e vestisse o melhor vestido do armário para ir ao jardim de infância.
[A infância é uma invenção cruel que culmina no planejamento bem sucedido de uma máquina de frustrações com fotos coloridas em revistas que reconhecem os melhores de todas as áreas.]
No mundo real é aconselhável carregar uma garrafinha com água e não olhar para o termômetro que aponta 33 graus em algarismos vermelhos contra a noite sem promessas. E tudo é mesmo assim tão de doer na barriga e suar no nariz; movimentos corporais involuntários que revelam o caos individual e (abram alas para mais um clichê do peito) até que um dia passa alguém como ele e como nunca você não sabe como dizer, explicar e nem sentir direito; mas, assim, escrevendo, parece tudo tão mais nítido enquanto o amor entra pelos seus ouvidos até o final da faixa isolada/escolhida do mp3; quando então, entre um cruzar de pernas e um rosnar do estômago, o silêncio volta ser rompido apenas pelo som dos dedos no teclado. E é tão triste um amor morrer assim no teclado, enquanto ele continua a vagar nos seus sapatos suplicantes pelos beijos de admiração e olhando para cima enquanto no fundo dos olhos transparentes passeiam suspiros de alunas secundaristas. E você sofre espremida em uma bolha vazia de ar. E o calor e os ventiladores continuam, escorrendo nas paredes o líquido gasoso de um arrastar de desejos sujos de pêlos que ventam em um arrepio gástrico; um amontoado de palavras que se conhecem fúteis e inchadas; o fio acorrentado de idéias murchas nos lábios depois de digeridas por um apetite seco; sai, entrega e morre. Você faz, você consome. Aquilo que se cobiça e não se desfruta faz mal às vísceras de porco que foram perdidas nos buracos da sua parede mental. A mente é um computador inimigo do prazer natural; pensar nos faz vulneráveis, expor nos faz fortes; o mundo é um grito por água e civilização. Mas, bem no fundo, o que eu queria dizer é que depois de você jamais conseguirei ser um deserto de plástico novamente.

Sonntag, März 25, 2007

prezado martírio, eu sofro.

{as pernas quentes por baixo da calça de lã; no sol escondido por trás de canções de uma nota, só, nos discos usados metidos em plásticos; rasgos. retalhos. revoltas nas ondas de calor repartindo cabeças de metal aos papéis.}
O meio do vício fica na esquina do peito com o fundo dos nódulos, disse o cigarro de palha ao suco de laranja.

- eu não estou entendendo.

[Just watch her falling down.]

A menina era assim tão linda em suas blusas pretas de bolinhas vermelhas ou em seus pijamas de peixes e ursos. Ela era simplesmente tão doce em sua delicadeza de óculos de plástico no rosto pálido e fresco; ele amava a menina. Ela era simplesmente tão incrível em suas danças malucas e dentinhos; tão colorida em sua elegância monocromática; tão móvel em seus silêncios musicados. O rapaz aguardava na sala amarela da vida.

As pernas frias despontando no lençol alvo de bolinhas de pele suja, a água viva em túneis de ilusão. O cão. A inveja confessa em frente aos retratos nos murais de plasma. O meio do amor fica no fundo do pé na esquina das unhas, disse o suco de laranja ao cigarro de palha.

- eu não estou pensando.

[I’ve got to see her again.]

O rapaz era assim tão confuso em suas palavras imprecisas nos lábios cercados de cravos. Espinhos era o que ele gostava de sentir. Ele era assim dão doído em seus sentimentos de inferioridade em um xadrez contínuo de linhas verdes. Musgos. Nas cordas do peito era unicamente tão drástica aquela prisão de gritos e bocejos. A menina corria de mãos dadas com a morte.

Os balanços de angústia e as formas curvadas da noite nas sombras. O medo das calorias no copo de leite. Imagens feitas de palavras são soluções perdidas, ou jamais vistas.

Dienstag, März 20, 2007

a calça e a manga

"era um amor imaturo";
um dos dois concluiu na mesa de bar sobre aquele romance de msn, enquanto o outro contava sobre não se sentir confortável em um vestido de lolita ou em uma saia escocesa.
o amor é tanto imaturo o quanto é triste o fim prolongado da vida?
a liberdade da falta do medo; o regresso é o próprio fim do caminho nas falhas do corpo; a imagem parada e a letra atleta. o amadurecidmento libidinoso da manga que morre nas calças.
[a fixação reside na problemática chamada não-adaptação de um instinto à progressão saudável dos outros. a falta de ritmo do instinto responsável pela fixação acaba deixando-o no meio do caminho, naquela parte da evolução do corpo humano na qual foi convencionada a idéia de que os estagiários reestruturariam as imagens recebidas pela retina aos moldes do ouvido no fundo da pele. as representações encenadas. os diagnósticos montados. os muros erguiam-se. as areias desabavam. mares engoliam tatuíras em baldes.]
jesus e deus eram a mesma pessoa.

Der Versager

Morava com os tios doentes em um bairro tranqüilo da cidade, uma tranqüilidade que contrastava com os modos angustiados da família. Não gostava de família, não suportava a idéia de que tinha algum tipo de compromisso com pessoas que o haviam ajudado desde a infância; a justificativa era de que, mesmo assim, não tivera uma infância feliz. Não poderia salvá-los, por que lhe ensinaram muitas coisas, menos a salvar uma alma. Que dirá duas. Que dirá um corpo. Ficava sentado depois de um dia de trabalho na frente do modem que piscava acusando falta de conexão. Olhava pro modem, o modem o olhava, nada acontecia. A mesma luzinha verde sempre piscando, a raiva do provedor, da linha telefônica da empresa privada. Uma privada. Cheia. Lotada. Transbordante. A tia reclamava na sala ao lado. O timbre da voz era insuportável, o tom das palavras mais ainda e, as palavras, nada diziam de novo. Ele sentia raiva, e a culpa por ter raiva. E a culpa pela culpa de ter raiva no lugar do ânimo e da desenvoltura necessária para o sucesso. Ele achava que seria um homem de sucesso, os próprios tios confirmavam, na infância. Criança brilhante, adulto próspero. O clichê mais cruel de todos, pensou. A gravata apertava o pescoço, mas ele não a soltava. Não conseguiu sequer abrir as braguilhas para relaxar a barriga marcada pelos elásticos da calça. Marcas vermelhas. O modem piscava. Sem internet, ele estava perdido. Não conseguia mais estudar, ler, sequer mover-se. O modem piscava. Quem sabe, um pouco de Fernando Pessoa antes de dormir, depois que os tios estiverem deitados e o computador esquecido aguardando a solução divina. Fodam-se as reclamações da tia, ele queria um milagre para o modem, e só.
Ele se sentia só. Só no sentido de pouco, só no sentido de solidão. Naquele dia que o modem pifou ele tinha saído do emprego. Uma merda de emprego, mas tinha internet a cabo. Agora ele saiu do emprego e o modem estragou. Em breve iriam chamá-lo para outro emprego, e ele precisaria da internet disponível. Algo com cadastros. Sites. Ele se sentia sem lugar; não bem sem um lugar ao sol, pois desse já tinha desistido. E se agora o modem estivesse funcionando, o amigo lhe diria no msn que ele é um inseguro. Sim, ele é um inseguro, um medroso detestável, na sua própria opinião. Algumas pessoas têm mais medo do sucesso do que do fracasso, dizem. E, realmente, o fracasso não lhe comovia. Mesmo ali, sem emprego, sem faculdade, sem modem; tudo que ele conseguia fazer era manter a gravata apertando o pescoço e as calças estrangulando a barriga. Assim como o fracasso, sua história não tinha um final. Assim como as histórias, os fracassos são um estado de espírito, uma raiva da proximidade, um enjôo da dor.
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Dois dias depois, ainda sem modem, ainda com os tios doentes, ainda sem emprego, o rapaz se sentia culpado agora pela falta de utilidade no ramo das prestações de serviço. Sentia falta do trabalho ao mesmo tempo em que repudiava a idéia de sentir-se pouco digno apenas como um estudante de Filosofia. Na Alemanha, estudar é uma profissão; pensou. Os tios não falavam nada, mas ele notava em seus escassos gestos o pouco caso, uma quase indiferença; na hora das refeições, as poucas refeições que o rapaz fazia em casa. Por vezes ele preferia ficar ao relento tirando fotos digitais do movimento das nuvens, por outras lhe agradava apenas sentar em alguma praça ou escadaria e fumar o seu cigarro. Chamava o cigarro de “meu melhor amigo” nas conversas entre os amigos íntimos, para logo depois ser apossado da culpa pela adoração aos vícios mundanos e prejudiciais. Morreria de câncer, talvez. E voltava a pensar na morte; quem sabe, fossem os cigarros. O rapaz sentia por ainda outras vezes, quase todas, o olhar inquisitório da humanidade. Nesses momentos, achava suas roupas adolescentes demais e seus trejeitos um tanto afeminados. E o modem, que continuava estragado, durante esses dois dias continuou a completar todos os pensamentos auto-reflexivos do rapaz, confirmando que tudo com ele só podia estar errado. Mesmo seus estudos de Filosofia não ofereciam grande atrativo naqueles dias de calor; pegava um livro ou outro, mas só conseguia mesmo ler o “livro do desassossego”. Lia na cama, de noite, depois do cigarro, em frente ao ventilador. Cansava os olhos até não poder mais e só então apagava a luz; não sem antes lembrar que não havia ajudado a tia a retirar os pratos da mesa de jantar e que, talvez, amanhã ela estivesse morta.

Montag, März 05, 2007

Sunday you need love Monday be alone

A TRIO (banda de rock alemã que acabou hit da Volkswagen e da Coca-Cola usando apenas uma guitarra, uma bateria e um vocal cômico) começou em 1981 e acabou em 1985, talvez por isso muitas vezes seja inserida em um movimento chamado Neu Deutsch Welle (nova onda alemã). A Neu Deutsch Welle era a princípio um movimento underground influenciado pelo punk rock inglês, a música new wave e, principalmente, influenciado pelo som e o ritmo peculiar da língua alemã, mas, como era de se esperar, tudo acabou em "mamãe de bandas de um só hit". Uma representante da nova onda alemã é a banda Mittagespause (a pausa do almoço).

Ainda sobre a TRIO, destaque para os hits Sunday you need love Monday be alone e Ja Ja ja.

[If you won't be my brother whatchu wanna be]
[If you won't be my sister whatchu wanna be]

O texto por trás de Ja ja ja fala de encontros, desencontros, maquiagem, consumismo e álcool, enquanto Sunday you need love está mais para cafajestes convictos (assim como ja ja ja está para as pedras voadoras). O Clã das Adagas Voadoras é o nome de um filme chinês no qual as pessoas voam; movimento caracterizado pelo simples manter-se aéreo, por meio de asas e máquinas, ou ainda, um sinônimo para a locomoção surpreendentemente rápida.

[As mulheres que cuidam de cachorros nos contos argentinos acabam tornando-se mães de aluguel de defunto.]

É sempre necessário um aquecimento prévio antes ou durante o falar do que importa: quem sabe um dia sentirei saudades dos meus tempos de universitária otária.

[Subir e descer escadas que são bafos e tiros de gritaria e tinta. Descer e voltar à calçada movediça e seus moradores com cheiro de grama molhada que sinto do alto dos meus passos quentes.]


Eu não gosto de estar sempre no mesmo ambiente; o apego não é nada além de uma simpatia. Fácil é uma palavra que não pertence ao vocabulário adulto. Acomodar-se é fácil, desistir também; desistir é tão maduro quanto um cigarro velho.

Eu hoje vim olhando as casas, as pessoas, as vozes e os calores; queria contar de tudo isso e do sufoco de não imaginar o grito. E então percebi que o grito não pode ser imaginado, criado, dialogado e todos esses ados e ervas da convenção social. O grito não tem explicação, não tem alarde, não tem cor e não tem bom gosto. O grito está sozinho. Ja, ja, ja.

Donnerstag, März 01, 2007

But never guess how the him would scream

Estava ouvindo Flaming Lips, mas troquei para New Order. Me sinto tocada pelas mãos do próprio deus, o senhor que nos ilumina rumo à escuridão eterna. Fogo, chamas, lugares abafados, Ian Curtis. Houve uma enchente de ratos mortos em Manchester quando Ian Curtis arrancou a própria vida de dentro da alma (e é interessante como o termo “própria vida” dá uma idéia de suicídio), quando homens arrancam a vida de dentro da alma, os ratos transbordam. Agora penso que minha substituição de Kurt Cobain por Ian Curtis tem um fundamento por demais auto-destrutivo.

(...)

Percebo que não consigo explicar meu amor de forma lógica e racional e nem mesmo de forma nonsense, só consigo pensar em solidões pesadas de meninos vestidos de preto tomando cerveja nas calçadas de outras cidades, cidades às quais eles não pertencem. E penso que chegaram de bicicleta. Imagino um homem lindo e glamouroso enchendo os olhos das lágrimas mais transparentes que o líquido da garrafa. A transparência é uma virtude? Pode ser, mas impossível imaginar a entonação ou a altura de seu grito.

Não, eu não acho clichê falar da impossibilidade explicar o amor. Acho que o racional pode dar conta, sim, acontece apenas que ele é tão transparente, que deveria escrever um livro. Eu li no bar que há pessoas que são tão sinceras que precisam escrever (um tanto demagógico?). Mas não vou emitir opiniões, só fofocas infundadas (no meu peito-precipício lá lá). Digo ao gigante olho inchado dentro de sua calça jeans, não se reprima!

Falar com o povo é falar consigo mesmo. [É o tchan!] é um grupo musical que representa o ser humano refletindo sua condição perante a sociedade.

Sleep well – feel well.

Mittwoch, Februar 28, 2007

Cameron Diaz e Drew Barrymore fumando um


Daqui pra frente, só fofoca. Teufelswerk's new way of life. Praia, chapéis, bronzeadores, ceú azul. Daqui pra frente, second life. Minha avó disse que eu não deveria me preocupar com sua morte; ela disse que teve uma vida boa, mas, é claro, só depois que parou de trabalhar. Drew e Cameron trabalham, brigam com os namorados, fumam um. Ninguém pensa nas plantinhas. Ninguém sabe que dentro de cada semente existe um embrião que carrega uma vida ou centenas delas, revestido por uma camada semelhante à placenta do útero. Comer feijão também é assassinato. Eu proponho o canibalismo. Milhares de corpos desperdiçados apodrecendo sem utilidade. Inspiração para filme de terror que se transforma em alimento. Ninguém pensa nisso, ainda. Mas sempre alguém já pensou. É claro que pensam antes em si mesmos, mas, uma praça, um violão e alguns malabares podem abrir várias cabeças para sempre. Quem precisa de um baseado. Vamos salvar as plantinhas e o meio ambiente. Eu penso em tudo isso ainda com o suor no rosto, recém chegada de um ônibus cheio de torcedores de futebol.

Sonntag, Februar 25, 2007

Das Büro



meu peito é uma garrafa vazia?
o mundo nos faz péssimos pais e ótimos avós, mas avós noramalmente desenvolvem doenças degenerativas; o corpo é falho.
me distraio observando a criança de 4 anos maquiando a boneca com pincéis de teclado. o homem de setenta e poucos que dorme em frente à banca de flores em outro país. eu só queria salvá-los.
as cores que entram pelo cabo USB. eu só queros que continuem vivos.
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a cozinha azul e os robôs vestidos de borracha. a roupa branca, suja e furada, o aparelho que urina líquido potável acoplado nos bolsos de metal. a falta que sentiam do cheiro de suor correndo na parte traseira do joelho. eu só quero que me deixem viva.

onde está o meu amor?

eu só quero um pote de leite vermelho, mas, diná, é só um coelho com um relógio.
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a mesa do escritório que meu avô chama de “büro”. os boletins do posto de saúde. a carterinha do convênio. o livrinho com exercícios para os músculos inferiores. as receitas médicas organizadas em pastinhas amarelas com o nome do médico preso em fita durex. eu insistindo para que ele tenha um geriatra, um médico fixo, ele dizendo que geriatra "é tudo charlatão".
meu avô, apesar de um homem durão, sempre enche os olhos d’água. a boca não mexe, os braços não abraçam e nem as mãos tremem, mas os olhos sempre denunciam. óculos escuro é “coisa de bandido”.
e então tem esse olho-aquário que aparece quando meu irmão imita seu jeito de vestir as calças mais perto do peito do que da cintura (aí o olhinho avermelha enquanto a boca engole uma risada seca e murmura uma espécie de expressão sílvio santos, só que sem abrir a boca. difícil imaginar, eu sei. mais difícil é esconder o constrangimento nessas horas, quem choraria por uma piadinha tão boba?). às vezes acontece quando ele conta de algum amigo que morreu. lembro de uma vez ter ido com ele numa dessas reuniões de amigos do colégio. outro dia perguntei por quê não faziam mais as reuniões, e ele disse que todos os colegas haviam morrido.

Donnerstag, Februar 22, 2007

A incomunicabilidade



"A noite" e "O eclipse", de Michelangelo Antonioni.

A coragem

E então vem aquela náusea de café, como a alergia de todos os gostos rotulados e nocivos. Frágil; a vontade de derreter em uma cama macia de lençóis embolotados do próprio suor. Feio, sujo e sincero. Caio Fernando Abreu era um mauricinho?
Entrar molhada na chuva e jogar as meias na única poltrona qualquer e depois deixar a porta do banheiro aberta; não se deve julgar uma pessoa até o dia de sua morte.

Um dia de tempestade foi o ponto de partida para as reflexões de Diná; a chance em uma urgência. Diná era uma compulsiva por certezas.
[As idéias delirantes são ensconderijos de sentimentos primários esquecidos.]
A obsessão pelo que se julga inabalável habita nos devaneios, corre por essas vontades primitvas abandonadas que se dissolvem nas idéias ansiosas. A criança excesssivamente agitada recebe adjetivos idênticos aos da criança que se opõe à moral.
Diná olhava pela janela do ônibus a tempestade que se consumava agora. A mesma já prevista no céu de nunvens cinza-chumbo iluminado apenas pelo alaranjado das lâmpadas penduradas aos postes cheios de fios no alto da avenida em um final de tarde, enquanto as duas se dirigiam ao ponto de ônibus.
O ponto de ônibus que parecia tão longe e os raios tão perto, a mãe que parecia tão alegre elogiando o ar fresco que denunciava os pingos nos óculos de Diná; lentes e janelas no fundo de todos os vidros. A mãe tão alegre, almost dancing in the rain. Mas isso foi antes.
Antes do ônibus cheio e aqueles homens lá no fundo gritando alguma coisa que fazia a mãe abraçar a filha. Diná não tinha medo dos homens, tinha medo da tempestade e não queria ser abraçada. Foi quando pensou que o simples fato de desvencilhar-se da mãe seria uma afronta; mesmo a felicidade da mãe a confrontava.
No entanto, cumprir o dever de forma excessiva a condenaria para sempre a passar o resto da vida em uma praça com balanços e gangorras mas entre muros altos como um reforço contra os desejos. Diná julgou a reflexão por demais ameaçadora. Enquanto isso a chuva aumentava e os homens gritavam palavras confusas que assutavam a mãe, Diná sentia o aperto dos braços pegajosos que apesar de tudo não faziam com que ela se sentisse segura ou mesmo próxima; a criança nunca sabe se a ausência é uma distância, uma alienação ou uma morte. E assim, Diná levantou de seu assento e foi sentar no colo de um dos homens que gritavam.

Dienstag, Februar 20, 2007

Redenção

Eu me exalto.
"O ano em que meus pais saíram de férias" não é um filme sobre a ditadura e nem sobre a infância, é um filme sobre abandono. Ok. E o Iñarritu não é um cara tão ruim.
"Little Children" (porcamente traduzido para "Pecados Íntimos") é sobre dois adultos casados e com filhos que se aproximam devido à síndrome de madame bovary que aflige alguns pais e mães de família. Trata-se de recuperar a infância/esperança perdida; a infância é uma invenção, afinal, e o casamento/adultério também. O filme é mais bobalhão do que todos os outros da semana, mas eu gostei, pelo simples fato de ser mulher. Eu sou bem mulherzinha, às vezes. Eu não quero que coisas ruins aconteçam mas ao invés de tentar impedi-las ou amenizá-las eu vou ao cinema. Eu não sou uma mãe moderna, não tenho família para sustentar mas tenho avós que caem no chão e quebram as costelas. Toda vez que vejo uma ambulância na rua penso que meus avós podem estar dentro dela. Minha mãe não se preocupa como eu, acha sempre que os problemas são pequenos e fáceis de serem resolvidos. O amor é indefinível e bizarro, essa coisa de querer cuidar/estar com alguém e ao mesmo tempo um desejo intrínseco de auto-afirmação dos envolvidos. Quando tinha 17 anos eu escrevi uma poesia que dizia que o amor era como as plantas: se deixamos de regá-las, morrem sedentas; se regamos demais, se afogam. Hoje penso que o problema não é esse. Não importa o quanto você cuidar de um relacionameno; filhos, contas e doenças podem afogá-lo. Aí ou você morre se debatendo até o fim ou mata a sede, é uma questão de extremos. Só que no outro extremo está um terceiro elemento, virtual ou palpável; ou você mata a sede bebendo de outra fonte ou morre afogado e seco ao mesmo tempo.
Mas é fácil ver as coisas boas e simples de uma vida conjugal sem filhos e adultério; como sexo em motéis diferentes com trinta por cento de desconto imprimindo o cupom da internet e chopps pagos com visa electron. Ou as coisas mais complicadas de se apreciar, como a beleza colorida dos dias de sol e gramados verdes diante de seus olhos sóbrios, vigiando bem a máquina fotográfica.
[Se veres uma criança, não confies por ser uma criança, ela vai te sacar.]
A Redenção é uma Ameaça.
Aceitar é uma espécie de morte; dentro de uns 30 anos não haverá mais lugar para reflexões blogais, ou as pessoas estarão desmaiando num calor de 60 graus ou trocando todos os eletrodomésticos por coletes à prova de bala e camisas de força; a sua própria camisa de força comprada por ninguém menos que você, o mundo te convencendo a enlouquecer e reprimir, cuidar e agir. Até rimou. Confissões são poesia, e eu sou você e você, um nenê.

Babel

Um tanto cansativa essa safra já molenga de filmes ao estilo "E.U.A, nosso maior inimigo". Um retrato da época é o diretor Iñarritu, um mexicano obsecado por uma mescla de acidentes, sangue e sofrimento, que acaba compondo um tipo bem conhecido de filme; apegado à construção de cenas um tanto apelativas (ajudadas, em geral, pelo molho de tomate), com o principal objetivo de resolver a ansiedade de estímulo. Contudo, Iñarritu é considerado um verdadeiro "crítico social", usando como matéria prima de sua obra acidentes nos quais os "pseudo-culpados" são sempre mexicanos ou assemelhados prejudicando norte-americanos da alta sociedade. Somam-se a isso as cenas entediantes, porém fotograficamente trabalhadas de forma magistral, de sofrimento e sangue das personagens norte-americanas; sangue e sofrimento suficiente para torcermos por elas até o último segundo do filme, quando percebemos que mesmo sem a nossa torcida os norte-americanos sempre se saem bem e ao tempero final-cinderella. E percebemos que os pseudo-culpados de cabelos negros nem eram tão maus assim.
Iñarritu já tinha dado o recado nos dois filmes anteriores, mas preferiu fazer um terceiro mais-do-mesmo e depois chamar de "trilogia". Inusitado mas pertinente, quem sabe, lembrar Antonioni, que usou na década de 60 o mesmo recurso em sua "trilogia da incominicabilidade", mas foi sincero o bastante para assumir sua futilidade existencialista, bem diferente de pretender prêmios provavelmente envolvidos com a máfia em cima de "preconceito" em filme de 25 milhões de dólares e com um galâ quente para cada nação envolvida. Despretensiosos e bobalhões, os melhores filmes anti-racistas que existem continuam sendo as comédias da sessão da tarde com o Eddie Murphy. E as melhores produções mexicanas continuam sendo as novelas sobre preconceito estético ao estilo "Topázio", a cega deslumbrante.

Sonntag, Februar 18, 2007

ainda sobre Ian McEwan

Eu nunca li Proust.
No entanto, ontem, depois de assistir "Pequena Miss Sunshine", finalmente entendi o que eu quis dizer no post do dia 29 de janeiro: os piores momentos de nossas vidas nos tornam quem somos. Quando o tempo passa rápido, estamos sendo felizes e inúteis para nós mesmos; mas, eu sei, é preciso ter cuidado com esse tipo de interpretação leviana. Não diria que todas as aulas chatas em que os minutos não passavam me tornaram quem eu sou mas, me tornaram, ao menos, mais paciente; no entanto, não foram os "piores" momentos da minha vida, então, não é um bom exemplo. Também não diria que o tempo que utilizei para desbravar lugares novos, quando as horas passam voando e parecem sempre insuficientes (e que talvez seja dos tempos o tempo mais bem gasto e feliz) não colaborou para construir quem eu sou. Mas, em geral, ainda acho que as pessoas são construídas pelos traumas, e que os traumas construídos em um minuto transformam esse um minuto em dez e assim por diante. E acho extremamente louvável colocar isso em forma de literatura, como fez Ian McEwan em "A criança no tempo". Considero um bom exemplo a alucinação do personagem principal:
um homem aos 40 e poucos anos vivencia o momento em que os pais estão discutindo sobre o seu nascimento (ou aborto) numa lanchonete; isso é narrado em uma passagem que enfatiza, inclusive, o homem em pleno transe reproduzindo com exatidão as bicicletas ("A MARCA da bicicleta GRAVADA EM LETRAS DOURADAS") que os pais utilizavam de fato no momento real (ou primeiro) do acontecimento; a ilusão do tempo real desvendada pela insanidade.
Aqueles três minutos de transe representam o início de uma vida inteira, e as bicicletas talvez sejam uma metáfora da velocidade e da MEMÓRIA (aquela que grava as marcas com letras douradas). Qual o motivo da obsessão do homem por qualquer tipo de velocidade exceder a sua obsessão por qualquer tipo de início?
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Ainda sobre tempo e memória, outro filme recente com crianças e idosos: "O ano em que meus pais saíram de férias"; mas, ao contrário de "Pequena Miss Sunshine", que concentra ao redor da criança uma série de diferenciadas problemáticas universais como morte, tédio e fracasso, o filme brasileiro limita-se a focar as verdades/reações infantis construindo um clima que leva a um saudosismo da infância mesclado à informações rasas sobre a época da ditadura; ou seja, mais um da série "para gringo ver". Também tem o queridinho da classe média bem informada que "se mata de rir" graças à sua super-útil consciência social (será o novo humor requintado?): "Borat", sem muitas crianças e idosos porém com bastante mulheres recheadas de plástico e louros de bochecha vermelha que rendem alguns (poucos) momentos antropológicos interessantes (mais interessantes que engraçados, na minha opnião.); mais um da série "Michael Moore is God", porém sem a participação do último rebelde americano chacoalhando com a nação do alto de seus duzentos quilos e remédios para o colesterol. Ah, os britânicos são TÃO refinados.

Freitag, Februar 16, 2007

Matoso

Matoso era um neurótico, o que significa alguém cujas emoções intrínsecas do espírito se movem de tal forma que nelas uma força interior tida como "superior" domina outra entidade interior; essa outra entidade, por assim dizer, corriqueira e manipulável, mas também movimentada por obsessões ligadas ao narcisismo em seu sentido mais contemplativo conformado.
A Força Superior Interior agiria em Matoso (hoje) como uma força superior repressora que compensaria a falta de autoridade do pai durante o seu crescimento como indivído. A falta do pai na infância, especialmente em situações nas quais a criança não tem como sorrir sem um pai ao lado - confie, você nunca verá uma expressão feliz de uma criança sem os pais nesses quase estados de urgência social completa (ex. festinhas de final de ano no colégio, natal, dia dos pais)- fez dele, além de um filho único que amadureceu solitário e triste (longe da janela temendo as abelhas no sétimo andar de um prédio de apartamentos de 1 quarto onde vivia com a mãe), uma vítima da doença; a autopunição.
Em seus sonhos, Matoso via-se a enfeitar bolsos acoplados a roupas de bichinhos de pelúcia, além dos constantes pesadelos com laranjas e nascer do sol. Os elementos infantis teriam sido escolhidos (criados) pela Força Superior Interior (ou Força Exterior Repressora) para mascarar os objetos realmente desejados por Matoso, evitando assim torná-lo um homem angustiado.
Imagens primitivas como todas aquelas relacionadas à recreação, alimentação, vida e morte; estes elementos não chegavam a causar angústia nem ao menos durante o sono, ou seja, os desejos foram totalmente censurados pela Força Superior "Pai Ausente Compensado" Interior.
O sonho angustiado, como não era o caso, já seria uma libertação da neurose, ou seja, a própria angústia. Matoso, como doente neurótico, estaria na realidade se punindo ao censurar seus próprios desejos através de uma construção mental particular e repressora da figura paterna. Nunca na vida o pai o havia presenteado em datas comemorativas, que dirá surrá-lo com uma cinta de couro quando batia na mãe. A punição é uma espécie de alívio; podemos pensar, por exemplo, no alívio como uma "diminuição de peso" e na punição como "cumprimento de pena"; à medida que se cumpre a pena, o peso (meses, anos) diminui. E, desta forma, podemos afirmar, enfim, que Matoso, sonhando com metáforas infantis/ engolidoras de desejos/angústias pela imagem mental paterna, satisfez sua necessidade de encontrar a verdadeira cinta de couro interior; que para sempre o curou dos desejos sexuais narcisísticos prejudiciais transformando-os em buracos de tecido e enchimentos de algodão.

Mittwoch, Februar 14, 2007

Bons ares


Existe um conto do Cortázar em "Las Armas Secretas" cuja personagem principal é uma senhora com ares muito elegantes que costumava servir a grandes outras senhoras da alta sociedade de Buenos Aires, mas que agora não costuma mais ser chamada para servir em festas, talvez pelo envelhecimento das feições, talvez por causa da crise, provavelmente pelos dois, afinal, Cortázar, como a maioria dos bons autores, sempre mistura o lado político/social com problemáticas bem existenciais/individuais das personagens;


I AM YOU AND WHAT I SEE IS ME!


O conto começa com a personagem principal recebendo em sua casa uma madame, e só percebemos que essa personagem principal se encontra em uma classe social inferior a da madame quando a mesma (a personagem principal) lamenta sua falta de cuidado ao "quase oferecer um chá" para madame (e isso pegaria muito mal). Toda essa "áurea" do conto tão bem trabalhada pelo autor acaba sempre me confundindo (como em "Cartas de Mamá" ou "A Casa Tomada") e tenho certeza de que ele faz de propósito. Aliás, o que importa a classe social da empregada se sua atmosfera é tão ou mais glamourosa do que a das pessoas que a contratam? O que importa a relação entre dois ou mais indivíduos se estão envolvidos na mesma rede de angústia? Em um conto, acredito que o que importa é justamente mexer com nosso valores e impressões sociais.



Mas, clichês a parte, o que eu queria dizer é que esta madame visita nossa personagem para contratá-la (e o trabalho estava escasso) para servir em uma festa, e nossa personagem regojiza-se com a idéia de novamente tocar em talheres de prata e copos de cristal; ah, como seria lindo limpar aquelas torneiras de ouro e coisas do tipo. Mas, chegando na festa, a empregada de atmosfera chique descobre que foi contratada para tomar conta dos cachorros da madame (que possuem quarto e colchões próprios).


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Eu não terminei o conto (que se chama "Los Buenos Servicios") e nem pretendia fazer uma análise do mesmo, apenas mostrar como me sinto, de volta ao Brasil.

Não, eu não estava na Europa, estava na Argentina, tão South America quanto nós, e no entanto tão mais lustrosa de cores douradas que emanam seus habitantes. Há mendigos? Muitos, e dormem escondendo o rosto em guarda-chuvas. Pedem dinheiro? Pedem, e não só dinheiro como desculpas por estarem solicitando dinheiro. Não que eu tenha considerado isso louvável do ponto de vista da "boa educação" e sim pelo fato de nos tratarem de igual para igual e não naquele tom de "me agradeça já que não estou te roubando"; o que acontece justamente por também serem tratados de igual para igual por pessoas de classes mais elevadas. Eu, acostumada a cenas clássicas do tipo maltrapilhos sendo escurraçados por donos de bar na Cidade Baixa, fiquei emocionada com o carinho do segurança do Burguer King com algumas menininhas de rua. Não que ele tivesse dado um hamburguer a elas nem paparicado nem nada, mas o jeito como as olhava e sorria e falava em um tom paternal me comoveu. No McDonald's da Andradas os mendigos não podem nem sentar na beirada da calçada, que dirá pedir batatas fritas em paz. Eu, uma menina de classe-média, já fui expulsa pelo porteiro quando sentei em um murinho do prédio "Morada da Redenção". E como tal já fui expulsa da beirada do canteiro do Shpping Praia de Bellas também. Em Buenos Aires, todos sentam na calçada que for, mendigos ou não, seja para entornar cervejas ou descansar os ossos com carne. O máximo que nos aconteceu, bebendo Quilmes litrão em uma escadaria de prédio (muito mais chique que o "Morada da Redenção"), em San Telmo, foi uma senhora dizer: "vocês vão ficar mais confortáveis sentando um pouco mais pra lá, pois aqui é o lado onde abrem a porta". A elegância é preservada graças à consciência política/social, que é muito maior por parte de todos; talvez por muita gente ter empobrecido da noite para o dia (não é como aqui, que apesar de a pobreza aumentar, somos pobres desde sempre) e isso ter gerado uma comoção maior; choque traz solidariedade, afinal. Enfim, dá para perceber uma preocupação e mesmo um afeto dos mais ricos com os mais pobres, uma atmosfera "estamos todos no mesmo barco".


I am you and what I see is me.


Ah, e não existem "latinhas" na Argentina (pelo menos eu não vi nenhuma), as menores coca-colas são vendidas em garrafinhas de vidro de 237 ml.

[O vidro está nos recipientes e nos refletores; frágil e quebradiço como todos os deformadores dos objetos reais e sólidos. Ou líquidos. O vidro também derrama, escorre, derrete, colore. A proteção é ilusória, mas deliciosamente transparente.]